Malícia Perícia

            A música tocava alto quando chegou na sala. Sabia que haveria um encontro mas não sabia que era com varias pessoas.

            Achava que era um encontro íntimo, as flores pareciam ridículas. As deixou de lado como se não fossem suas o mais rápido que pode. Ela estava deslumbrante, mas não como de costume. Estava mais naquela noite. Completamente produzida para a festa que dava aos amigos. Segundos depois sua beleza desfloresceu como uma rosa que murcha no outono. Primeiro sentiu vergonha, depois angustia e por último raiva. Até sentiu seus dentes cerrarem. Mas logo tirou os olhos de sua princesa e começou a cumprimentar os convidados. Por um momento pensou em ir embora sem que ninguém lhe visse mas achou melhor ficar e ter a chance de estragar a festa.

            Tinha o enganado? O convite foi tão claro: encontro em casa sábado. Sim era sábado. Quase como a chamada do sexo. Mas não era nada daquilo. Talvez ele tivesse entendido errado…não. Tinha entendido certo, sem sombra de duvida. Mas não podia acreditar. Não sabia nem como se comportar. Mas quando chegou ao encontro da anfitriã a tratou com naturalidade inimaginável.  Disse que estava linda e parabenizou pelo belo apartamento.

            Não conseguiu identificar nenhum concorrente a não ser todos os outros homens do apartamento. Conseguiu imaginar a cena de um fazendeiro jogando milho para a granja inteira. Também imaginou a fila do INSS que vira no noticiário mais cedo. Mas infelizmente essas eram imagens da sua cabeça. A que estava vendo ali na sua frente era da mulher da sua vida ao lado de homens bem sucedidos, bonitões e engraçados. Nada que um homem possa odiar mais. E se apelasse para dar em cima de outras mulheres? Talvez causasse um certo ciúmes. Olhando em volta parecia que todas as mulheres da festa haviam desaparecido. Conseguiu ver 3 ou 4. Uma mais bonita que a outra, portanto uma mais feia que a outra também. Mas nenhuma chegava aos pés do seu amor. Aquilo seria inútil.

            Resolveu ir embora. O dinheiro gasto com as flores, o táxi e o perfume novo? Paciência, eram mais baratos que o calmante que tomaria chegando em casa. E em um piscar de olhos desapareceu pela porta da cozinha.

            No hall quem sofreu foi o botão. Foi espancado até que as portas se abrissem. E na descida até o térreo quem sofreu foi o porteiro com as cenas da câmera de um homem de idade adulta se descabelando e se jogando contra as paredes. O ataque leve de raiva foi suficiente para conseguir manter a postura até sair do prédio. E da calçada mostrou o piores dedos e disse as melhores palavras, pelo menos para ele. Mas sabia que ninguém havia ouvido, a música estava alta e o apartamento era na cobertura. Foi só um esforço de conforto mental.

            Desceu do táxi e entrou no sobrado onde morava. Dentro do táxi ficou calado. Disse apenas o endereço. O motorista tentou puxar assunto e não obteve sucesso, a única coisa que avistava pelo retrovisor era um sujeito emburrado com a mão na testa.

            Abriu a porta e voou pro quarto, onde estavam os comprimidos. Passara na farmácia hoje para buscar uma nova embalagem do seu companheiro tarja preta preferido. Tomou 2, pra dormir logo. Como eram fortes, fariam efeito em no máximo 20 minutos. Mas a irritação de abrir o pote lacrado o fez tomar 3. Sentiu a tontura de costume e não teve tempo nem mesmo de tirar os belos sapatos.

            A dor na cabeça era forte e o Sol também. Mas o que parecia o ter acordado era a porta batendo lá embaixo. Ficou sem entender o que estava acontecendo por alguns instantes ate lembrar do episódio de ontem, fechou a cara, o roupão e desceu.

            Ao abrir a porta se perguntou o que fazia a polícia ali. Mas antes de formular qualquer possível resposta já havia sido imobilizado e algemado. Ouviu um dos policiais perguntando ao outro como tinha a cara de pau de estar na casa dele e como conseguira dormir tão bem, já estavam batendo na porta há alguns minutos. Sem entender nada foi levado ao camburão. No caminho os policiais se mantiveram completamente calados. Só ouviu alguém quando chegou na sala do delegado.

            O homem estava com a cadeira virada como nos filmes mas o cheiro da sala era de praia. Quando se virou, sua barriga enorme e sua pele extremamente branca o assustaram. O delegado estava olhando pela janela e passando protetor solar. Deve ter passado o produto nas mãos e nos braços pelo menos cinquenta vezes durante a conversa de no máximo 5 minutos.

            -Você vai esperar o advogado para confessar ou já quer ir agilizando as coisas?

            -Confessar o que?

            -Que você esqueceu de dar comida ao seu gato ontem de noite.

            -Mas eu não tenho gato.

            E em um pulo, o gordo delegado bateu as duas mão na mesa e vociferou o quanto o odiava e o quanto odiava os idiotas que tentavam negar os crimes na sua frente.

            -Tudo bem mentir. Mas na minha cara??? Na minha delegacia? Na minha delegacia não.

            Nesse momento o enorme policial que estava atrás da figura de roupão complementou:

            -Na delegacia dele não.

            O delegado leu em voz alta que estava sendo acusado de homicídio seguido de estupro. Necessariamente nessa ordem. Olhou em volta e tentou achar alguma câmera ou repórter, tinha certeza que se tratava de uma pegadinha. Mas o suor misturado com protetor solar do delegado que vociferava a sua frente parecia reais demais.

            Mas a surpresa maior veio quando o policial disse o nome da vítima. Se tratava do seu amor. Não podia ser. Não acreditava que ela poderia estar morta a uma hora dessas. Que não a veria nunca mais. Que não poderia sentir o cheiro da sua pele.

            -Eu não fiz isso, senhor. Eu juro. Eu posso provar. Fui a uma festa na casa dela ontem e haviam dezenas de pessoas lá. Eu mal cheguei e logo fui embora. Tinha entendido que era um encontro romântico e quando cheguei lá e percebi que na verdade era uma festa fui embora.

            -Eu sei que esteve lá, inclusive deixou flores com seu nome e sua digital. Pena que os outros convidados não deixaram nem flores e nem digitais. Você acha que pode me enganar? Não havia nenhuma digital naquele apartamento a não ser as suas, a da vítima e da faxineira que vai 2 vezes por semana. As câmeras do elevador mostram você entrando e saindo e os seus vizinhos também o viram sair de carro ontem de noite.

            -Você não está entendendo, senhor, tinha um monte de gente lá. Eu peguei um taxi para ir, um taxi para voltar. Cumprimentei a todos lá. Sei que havia bastante gente. Talvez alguém que tenha ficado até mais tarde possa ajudar melhor a solucionar o caso.

            -Quem não está entendendo é o senhor. Não houve festa nenhuma, os porteiros e vizinhos confirmaram. Ninguém escutou nenhum barulho e nenhuma música. As câmeras do elevador mostram apenas você entrando e apenas você saindo.

            -Eu posso contar tudo com todos os detalhes e o senhor verá que está enganado. Eu sai de casa com as flores que comprei no final da tarde e entrei no táxi que pedi pelo celular. Desci exatamente em frente ao prédio e comuniquei que ia no apartamento na cobertura, disse meu nome e tudo mais. Tive minha entrada liberada bem rápido e subi. Quando entrei no apartamento ouvi um som alto vindo da sala e não entendi nada. Cumprimentei a todos, inclusive a minha amiga. Em seguida, fiquei cerca de 15 ou 20 minutos por lá e fui embora pela porta da cozinha, para não ser visto e passar constrangimento. Apanhei o primeiro táxi que vi na rua, cheguei em casa, tomei meu calmante e dormi sem nem mesmo tirar os sapatos.

            -Senhor, olhe para seus pés. Onde estão os sapatos? Dentro das pantufas? Ou no bolso do roupão? Ah não, devem estar dentro da sua cueca samba canção azul bebe, certo!?

            Quando se deu conta de que estava trocado ficou completamente confuso e disse que poderia ter se trocado durante a noite e não se lembrava. Afinal o remédio que tomava era muito forte e a dose em excesso podia ter causado algum lapso de memória. Mas não era só isso que não batia com o que viveu na noite anterior.

            -Disse que tomou o seu remédio certo? Porque ele está lacrado então? Quem toma um remédio que ainda está dentro da sacolinha da farmácia fechado? Tem até a nota fiscal de compra.

            -Espere  um momento senhor, de ter tomado o remédio eu tenho certeza. Deve haver outra embalagem em casa.

            Mas a nota fiscal confirmava que era o frasco que tinha comprado no dia anterior.

            -E porque a mentira sobre o carro? Um de seus vizinhos viu você saindo de carro. Você pode dizer quem eram os taxistas então? Tem como provar mais essa? Ou prefere guardar na pantufa também?

            -Olhe os registros de chamadas do meu celular então. O policial brutamontes pegou o aparelho que estava em um saco de provas e confirmou que o ultimo registro havia sido às 15h para o serviço delivery de uma rede fast food.

            -Impossível. Eu não estou entendendo se isso é uma pegadinha ou se armaram alguma para mim. Eu não tenho inimigos. Não imagino que mpoderia ser. Mas e as pessoas que estavam na festa?

            Com a cor de um pimentão o raivoso delegado mandou que tirassem aquele retardado dali e que estava ferrado. Não queria mais o ver a não ser pelas grades.

             Sem entender nada, o pobre sujeito foi carregado a arremessado pra dentro da cela. Onde permaneceria até o seu julgamento. Estava em choque. Não conseguia entender absolutamente nada. Quem estava loco ali? Os porteiros? As câmeras? Os policiais? O delegado? Ou ele próprio? Tentou construir uma linha do tempo de todos os movimentos que fizera no dia anterior. Tentou se lembrar do rosto dos taxistas. Tentou se lembrar dos bonitões da festa. Tentou se lembrar dos horários. Tentou se lembrar do carro. Tentou se lembrar do remédio. Tentou se lembrar de uma infinidade de coisas. Mas não conseguiu. Não se lembrou de nenhuma. As versões das histórias estavam se confundindo e não conseguia mais dizer o que era real e o que era imaginação. E quando tentou se imaginar na versão do crime, se viu entrando no apartamento dela. Ela abria a porta com um sorriso e antes que pudesse lhe entregar as rosas e a caixa de bombons ela lhe da um beijo e um abraço forte. Caminham até a sala onde ficam as flores. As roupas ficam pelos corredores. Consegue sentir o colchão macio e a pela quente da amada que esta junto da dele, talvez mais quente ainda. O cheiro dela se aproxima e entra nas suas narinas como um avião entra nas nuvens. A sensação de conforto e prazer reinam da mesma maneira que o amor que pode ser enxergado ao redor dos dois.

            E no momento de êxtase ele vê nos olhos da amada seus olhos também. Vê uma alma apaixonada. Uma alma entregue, completamente entregue.

 

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