Bom-bom bom

Não, não gostava de chocolate. Fizera cena todos aqueles anos. Quando ganhava as caixas de chocolate importado sorria e dizia que amava. Mas, no fundo, não gostava de chocolate. Nunca gostara.

Mas não sabia porque nunca disse a verdade. Podia simplesmente dizer que não gostava. Mas ele era  O cara que gostava de chocolate. Se dissesse que não queria mais ver nenhum tipo de chocolate na sua frente perderia sua identidade. Era uma situação muito difícil. As situações de tensão eram muitas. No mínimo 10 vezes por ano ganhava chocolates: páscoa, natal, aniversário, ano novo, aniversário de casamento, dia dos pais, dia do amigo….se bobiar até no carnaval alguém lhe dava uma barrinha de chocolate, talvez meio amargo até.

Mas tinha um truque: nunca comia o chocolate quando ganhava. Dizia que ia guardar para uma ocasião especial. Afinal, “esse chocolate é muito chique, deve ser comido em uma ocasião especial”. As ocasiões eram especiais para o porteiro, para o zelador, para a dona do Dog perto do trabalho, para o gerente do banco, mas jamais para alguém conhecido. Ninguém podia saber que ele era uma farsa.

E, um dia, sem imaginar, o momento especial foi para o Caracol. O mendigo que ficava na esquina da rua debaixo da esquerda. Ele costumava recolher tudo que encontrasse na rua e pendurava nele próprio. As vezes parecia uma árvore de Natal. Certa vez estava com 4 chapéus: um de cada tipo. Mas não era de chapéus que gostava. Era de chocolate. Caracol amava chocolate. Quando comia chocolate fechava os olhos, deitava no chão e simplesmente ia para uma outra dimensão. E foi então que descobriu que Caracol era provador de chocolate. O morador de rua não contou exatamente isso. Mas foi o que deu a entender. “Quando eu provava lá na fábrica era a melhor época da minha vida”. Mas nunca conseguira descobrir que fábrica e nem que prova era essa. Pensou que talvez revirasse o lixo de alguma fábrica ou algo assim, Mas não fazia sentido. E ja tinha ouvido falar que o pobre coitado ja havia sido chef ou algo assim. Então imaginou que tinha sido um provador de chocolate.

Mas o que importava é que ao comer um pedaço de chocolate, o mendigo ficava estirado no chão e não respondia nem olhava. Uma vez pensou que tivesse tido um treco e morrido, mas o leve sorriso em seu rosto denunciava uma eternidade de prazer no seu mundo degustativo. Ficou imaginando qual era a sensação. Como era tão boa para o Caracol e para ele não? As vezes ficaca indignado, ams logo passava quando percebia que tamanha felicidade era impagável para alguém que não tinha nem teto. Até se sentia mal de não gostar de chocolate. Como se estivesse cometendo um pecado.

Mas jamais revelaria seu desgosto pelo chocolate. Tinha outros planos. Iria dar todos os chocolates que pudesse ao Caracol. Mas não podia desconfiar. Então colocaria dentro de um pacote de hambúrguer ou em um envelope de carta. Mas não deixaria o mendigo sem chocolate nem sequer um dia. E depois de algum tempo se tocou de que, talvez, o sentimento de quem o dava chocolates era o mesmo que sentia em relação ao Caracol. Por um momento achou aquilo muito estranho e fez uma revisão dos pensamentos pra saber se era aquilo mesmo. Fazia bastante sentido. Mas ele não gostava de chocolate, então tinha alguma coisa errada. Mas tinha algo de que gostava muito: fazer as pessoas felizes.

E quando davam um chocolate para ele, a festa era tanta que quem presenteava ficava muito feliz de ter acertado no presente. E talvez fosse por isso que gostasse de chocolate. Quer dizer, por isso que dizia que gostava de chocolate. No fundo, talvez só quisesse deixar as pessoas felizes. Assim como fazia com Caracol, só o queria deixar feliz.

Então parou pra pensar que, as vezes, não é o presente que importa, mas o fato de dar o presente e toda a cerimônia que acontece. E, por um momento, teve vontade de comer um chocolate, pra fazer alguém mais feliz naquele dia.

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