Cão que late não morde

            O cachorro latia. Sempre nas histórias tem um cachorro latindo. E sempre que você parar e ouvir o mundo lá fora vai escutar um cachorro latindo. Se ele não estiver latindo na mesma hora em que você estiver prestando ele vai latir em seguida.

            Isso é mágico. Isso é real. Assim como a cena que via enquanto escutava os latidos daquele cachorro. E, embora fosse chocante, prestava mais atenção no latido do que na cena. Será que era um cachorro grande ou pequeno? Ele tinha um latido levemente fino, porém muito forte e alto. Então deveria ser um cachorro de porte médio para grande. Talvez um vira lata. Ou talvez um cão digno de pedigree com um latido gringo. Talvez ele até estivesse calçando aqueles sapatinhos para proteger as patinhas. Louboutin, sem sombra de duvidas. Era uma bela dama. Por isso o latido fino. A conclusão até agora era de uma cã gringa, muito rica e muito requintada com um latido fino. Deveria estar em um raio de 2 quarteirões e meio. Talvez 3, se estivesse latindo de uma varanda ou de uma janela com rede de proteção. Ai vai uma dica de aspecto técnico: quando os cães latem de cima e de uma varanda o som parece muito mais próximo do que está. Lá de cima o latido percorre maiores distancias por ter menos objetos no caminho. Estudara isso no colegial. Velocidade do som, reverberação e todas essas coisas. Havia sido a matéria mais útil, hoje entendia melhor como os latidos se propagavam por ai.

            A nossa cã gringa ainda latia. E a cena continuava intocada. Talvez jamais conseguisse absorver aquilo. Talvez fosse melhor ficar ouvindo os latidos até que alguém chegasse ou acontecesse alguma coisa que o tirasse do estado imóvel e ridículo que estava: de pé observando a prateleira vazia, pisando nos cacos de vidro. Sim, havia roubado a obra mais valiosa do museu. Era guarda do museu a cerca de três anos e meio e nunca tinha visto nem a sombra de um ladrão. Estava na casa dos vinte e poucos e o que lhe interessava era o latido da cachorra gringa. Imaginou se os assaltantes ainda estariam por lá. Ou se eles teriam levado outras obras.

            A realidade é que não saberia nem explicar o que havia acontecido. Estava na sua salinha VIP, comendo sua pizza VIP, tomando sua cerveja VIP e fumando alguns cigarros VIPs. Era assim que se sentia no trabalho: VIP. Era o dono do museu de noite. Podia fazer o que quisesse. Era um museu gigante para apenas uma pessoa: o guarda noturno. Que por coincidência era ele mesmo. Mas só por enquanto. Enquanto os guardas não chegassem e enquanto não assinava o contrato de demissão por justa causa. Só não gostava de uma coisa, do seu chefe. Gordo, rígido, piadista sem graça e infeliz. Achava impressionante como chefes e pessoas do mundo corporativo tem um arsenal de piadas sem graça. Na verdade ficava impressionado até descobrir o porquê de tanta piada sem graça: todas essas pessoas que trabalham no mundo dos negócios são obrigadas a fazer um curso de piadas sem graça. E haviam fiscais que tomavam conta disso. Sabe quando aquele seu amigo que trabalhava com você foi demitido sem mais nem menos? Então, ele deixou de contar um número significativo de piadas sem graça e algum fiscal o pegou. Ele ja era. É assim que funciona, se você não conta boas piadas sem graça você cai fora. Tem que ser como os outros.

            Mas voltando a área VIP, ele tinha desligado as câmeras. Assim como fazia todas as noites, ele desligava as câmeras pra poder fazer o que quisesse pelo museu. Ele passeava por varias alas, ouvia música alta, dançava, cantava, se divertia pelos cantos daquele museu. Tinha uma caixa que tinha algumas coisas divertidas. Um daqueles jogos de boliche infantil que pegou do seu sobrinho quando o menino cresceu. Frisbee. Sim, um frisbee. Um carrinho de controle remoto. E, uma vez trouxe um helicóptero elétrico de controle remoto, mas a bateria acabava muito rápido e o salão principal fica muito longe da tomada 220v que fica lá embaixo no refeitório. Claro, o refeitório. Nele, as maiores aventuras gastronômicas já foram vistas. Poderia fazer um programa de receitas. Tinha 7 livros de receitas e estava terminando de preparar as receitas do último.

            Mas isso tudo não passava na cabeça do pobre jovem que sabia que acabava de ter seu emprego perdido, pensava em outras coisas. Iam lhe questionar sobre as câmeras e não teria o que responder. Talvez pudesse dizer que não sabia o que tinha acontecido, que os bandidos bateram com algo na cabeça dele e ele só acordou depois que ja haviam roubado tudo e apagado as gravações. O problema é que checariam as gravações das outras noites também. E ai não teria uma desculpa. Com certeza achariam que o guarda era o ladrão. Se não fosse preso naquela mesma noite estaria feliz. Pelo menos teria algum tempo pra ouvir alguns latidos e relaxar um pouco antes de ir para a cadeia.

            Já havia aproveitado muito aquele emprego. Além de ter aprendido muito nas suas excursões  noturnas pelas alas do museu ja havia se divertido muito e cozinhado bastante. Seria justo que outro tomasse o lugar dele. Não fazia piadas sem graça e não se dava nem um pouco bem com o chefe gordo e ranzinza. Talvez fosse obvio que aquele emprego não seria seu até que envelhecesse e se aposentasse. Talvez ja devesse saber disso faz tempo. Mas o estado agora era de choque. Simplesmente estava sem reação. Estava apenas de pé, olhando e ouvindo.

            Parecia que os latidos lhe diziam alguma coisa. Talvez tivesse acordado e saído da área VIP por causa deles. Como se a bela cachorra gringa também fosse segurança do museu e o estivesse avisando do que acontecera.  Só ele não tinha visto nada. Eram muitos cacos de vidro no chão e achava melhor não se aproximar para não deixar nenhuma marca sua por ali. Quem sabe não encontravam alguma marca de digital ou algum fio de cabelo por ali.

            Sim. Um fio de cabelo. Cabelo não. Pelo. Se tratava de um exemplar de um pelo. Rígido e curto, não poderia ser de um humano e muito menos de um gato. Era um pelo de cachorro. Um pelo bege quase dourado, relativamente curto e duro. Daqueles que se você tenta entortar ele volta para o lugar. Os assaltantes tinham um cachorro com certeza. Ai estava a pista que precisava. Mostraria para os policiais e eles fariam um teste de DNA e encontrariam o elemento da espécie canina. Estava a salvo.

            Claro que não. Jamais levariam a serio uma pista como aquela. Simplesmente iriam rir daquilo tudo, prende-lo e na mesma hora acionariam o seguro milionário.

            Não se pudesse recuperar a obra antes de amanhecer. Passava pouco das duas horas da manhã e a sua amiga gringa continuava latindo. Sentiu um estalo na sua cabeça e resolveu olhar pelas janelas pra ver de onde vinha o latido de cachorro. Pegou os binóculos que usava para ver as maquetes em tamanho real e começou a procurar pela janela. Passava os binóculos pelas janelas e sacadas dos prédios vizinhos e pouco podia ver mas o pouco via muito lhe interessava. Salas com decorações tão diferentes uma ao lado da outra. Pessoas que moravam com uma parede de distância e eram tão diferentes. Apartamento que pareciam ser gigantes e, no prédio do lado alguns tão pequenos. Imaginava quem eram as pessoas que moravam lá. E, finalmente viu uma bela cã gringa latindo e pulando em uma sacada milionária. Não sabia dizer sua raça. Com certeza era uma das poucas no país. Talvez por isso não parasse de latir. Devia estar se sentindo solitária e queria encontrar alguns amigos. Tinha uma pelagem bege, quase dourada, um laço vermelho no pescoço  e bastante grande, porém muito magra. Parecia uma mulher alta e magra com cabelos loiros compridos. Ela era a suspeita principal e as informações estavam batendo. O prédio estava a quase 4 quadras dali e sua suposição era verdadeira: do alto os latidos chegam mais longe. Parecia estar presa na varanda. Não sabia dizer o porquê.

            E como uma bomba que assovia no ar e explode em solo, um pensamento caiu no meio de seu cérebro. Correu para outra janela. Conseguiu ver a cachorra. E na outra janela também e na outra também. No corredor que dava no salão furtado a mesma coisa. Podia ver a varanda de todas as janelas da sala do corredor e da sala vizinha. Na verdade, podia ver a varanda de toda a ala norte do museu. E isso significava que da varanda toda a ala norte do museu podia ser vista. Se você poder ver, você pode ser visto. Era uma das regras da vida. Se você quer ser invisível também não poderá ver. E naquele caso, a cã gringa podia ver tudo o que acontecia daquele lado do museu. Podia ter lhe observado durante meses, Visto tudo o que fazia no museu. Estudado sua rotina, suas atividades e seus hábitos. Com certeza ela sabia que por volta das duas horas da manhã ja havia feito alguma coisa divertida pelo museu, preparado alguma receita e que, depois de comer, iria para a área VIP descansar um pouco. Foi nessa hora que deixou seu posto de observação e foi até o museu. Deve ter entrado sem medo, afinal, um guarda que pratica pênalti no corredor não deve estar sendo filmado. Quebrou o vidro, pegou a obra e foi embora como quem vai a uma pet shop, compra um pacote de ração e volta para casa.

            Dessa vez perdera. Mas pelo menos tinha descoberto o culpado, sua localização e suas estratégias. Iria tentar lutar pela liberdade. Mas no fundo sabia que era um grande perdedor naquela história. Perdera para o latido de cachorro que tanto ouvira na vida. Como se sempre tivesse sido alertado, mas não tivesse conseguido entender de fato o recado. De agora em diante prestaria mais atenção nos cães e cãs que cruzassem seu caminho.

 

  

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