Sábio saber

            Não sabia se iria sair daquela ileso. No fundo sabia. Sabia que não sabia. E sabia que deveria saber mais. Se soubesse mais não estaria em uma situação como aquela. Mas agora era a realidade e tinha que lidar com ela.

            Passava das duas horas da manhã e nenhuma criatura fantástica aparecera. Estava observado fazia horas e não vira nenhum sinal de vida além de algumas aves, alguns insetos e barulhos normais de um lugar como aquele. Se bem que era difícil falar de normalidade depois de tudo o que passar e que passaria dali em diante. Afinal o normal para ele antes daquela aventura era outro conceito de normal.

             Afinal, conforme a realidade muda algumas coisas deixam de ser normais e outras passam a ser. E era isso que estava vivenciando nos últimos meses. Desde que começara sua expedição. Depois de assistir um filme que contava a história de um lugar mágico com criaturas mágicas passou a se questionar de tudo aquilo que o rodeava na selva de pedra. Morava lá desde que nasceu e nunca tinha se interessado muito pela cultura de outros povos e outros lugares. E agora, o que mais queria eram novas descobertas. Queria entender o que era de fato um ser vivo. O que era possível. O que ele tinha de diferente de uma pedra. Porque se sentia como uma pedra. Se sentia incapaz de realizar qualquer grande mudança, de fazer qualquer coisa por conta própria. Mas depois de assistir o tal filme levou uma picada. A picada da curiosidade, do inconformismo. E como fogos de artifícios seus pensamentos se desconstruíram e serviram de combustível para a uma jornada em busca do desconhecido.

            Se tratava de uma busca. Uma busca por algo que não sabia o que era. Não sabia o que buscava, apenas sabia que buscava. Com certeza era algo que não conhecia, algo surpreendente. E a ideia de um lugar onde tudo é mágico chamava sua atenção. Mas o que era uma coisa realmente mágica? Talvez fosse tudo uma questão de ponto de vista…mas não iria pensar nisso. Antes viajaria e buscaria o que buscava. Depois disso pensaria. Ja havia passado muito tempo de sua vida pensando.

            E era hora de recompensar todo o tempo pensado com algum tempo de ação. Começou procurando um roteiro ou um lugar para onde ir. Mas começou a perceber que nenhum lugar mágico estaria em uma indicação de roteiro. E nenhum lugar mágico é conhecido e divulgado para todos. Precisava conhecer alguém que soubesse mais. Que pudesse ajuda-lo com a viagem. Dissesse onde, ir, com quem falar, o que fazer, o que levar…talvez quisesse tudo de mão beijada: um roteiro, as passagens e uma experiência única garantida. Não, não era isso o que queria. Queria descobrir por si próprio. Descobrir e contar para alguém. Queria ser ele quem diria o roteiro, com quem falar, onde ir, o que visitar…

            Dessa vez, quem seria o capitão da expedição seria ele. Pegou o mapa mundi que guardava atrás da cabeceira da cama e começou a analisar até onde conseguiria ir a pé. Depois iria até alguma ilha. Com certeza haveria alguma coisa muito impressionante em uma ilha deserta. Uma comunidade isolada com princípios e leis próprias. Pensou que talvez devesse existir uma sociedade justa e evoluída aonde encontraria as respostas para melhorar o mundo. Talvez essa comunidade ja soubesse qual a melhor forma de viver e a melhor forma de organizar uma cidade. Afinal, as vezes as respostas que buscamos estão muito perto.

            Então estava decidido, viajaria para alguma ilha e procuraria por um povo evoluído. Iria viajar por terra até onde conseguisse e chegaria na ilha com uma canoa improvisada. Faria com alguns troncos e amarraria com cipó, como as jangadas dos filmes. Partiria no dia seguinte pela manhã. Não queria esperar. Iria comprar uma boa mochila e alguns itens de segurança.

            Na saída, olhou para a sala antes de sair e sentiu um pouco de medo. Mas imaginou que  todo grande explorador ja deve ter sentido medo. Isso o confortou: o fato de seu comportamento ser normal. Parecia estranho que fosse o único a alguma coisa. Mas logo fechou a porta e partiu.

            Decidiu apanhar um ônibus na rodoviária mais próxima que chegasse até a costa. De lá, viajaria pela costa até o norte, para chegar na região mais afastada e com mais vegetação. Com certeza o que buscava não estava perto dos grandes centros urbanos e do caminho do desenvolvimento.

            No começo sentiu muito medo, mas depois de algumas cidades, começou a se acostumar. Estava tentando interagir com todos que cruzada. Perguntava de uma ilha ou de alguma tribo que vivia no norte. Ninguém sabia dizer, mas da conversa sempre surgiam novos destinos e informações incríveis sobre a cultura e história dos lugares. Começou a perceber como aqueles lugares eram diferentes de onde morava. Como as pessoas pensavam diferente e como era possível simplesmente ser diferente.

            E quando ja estava muito longe, tinha duas opções, iria por mata a dentro ou permaneceria na rota pelas cidades. Decidiu ir pela mata. Se tratava de uma mata inexplorada, sem caminhos traçados ou placas de informação. Era uma selva, e como um selvagem deveria se portar. Com certeza os melhores exploradores escolhiam os caminhos mais difíceis. Afinal, como sempre ouvira dos mais velhos, para alcançar o topo era necessário subir todos os degraus, inclusive os maiores.

            Depois de alguns dias e algumas noites, estava exausto. Tinha percorrido grande distância. Parava para descansar de noite, quando o sol se punha. Mas de madrugada acordava para observar a floresta. Observar os animais e descobrir se existia alguém por lá. Durante muitos dias não encontrou ninguém e os poucos animais que via logo fugiam do explorador. Era como se ninguém quisesse interagir com o viajante. Estava sozinho

             E como o esperado, além de sozinho estava perdido. Uma vez assistira a um filme em que um grupo de jovens ficou perdido em uma floresta e para saber se estavam dando voltas em círculos eles amarravam fitas nas arvores e deixavam alguns galhos quebrados pelo chão. Já havia contado uma dezena de fitas repetidas quando parou e percebeu que estava em apuros. Sua água havia acabado e chegou a pensar em beber água das poças, mas em questão de segundos desistiu por conta do perigo de contrair alguma doença ou passar muito mal. Sentou, olhou em volta, olhou para o céu. Estava ficando de noite, estava perdido, estava sem mantimentos e não ouvia nenhum barulho.

            Estava desesperado. Com certeza iria morrer se não encontrasse logo um caminho ou mais mantimentos. O nervosismo o estava deixando insano. Se assustava com os próprios passos assim como achava que tudo eram bichos. Galhos, folhas, pedras…pareciam coisas vivas. Desistiu quando viu uma pedra se mexendo muito devagar.

            Parou para olhar. E para ter certeza de que não era ele quem estava se mexendo encostou a cabeça em uma árvore e ficou imóvel. Sim, a pedra estava lentamente se movendo pelo chão da floresta. Quando constatou que aquilo era real, subiu da primeira árvore que pode e ficou observando. Podia ver a pedra indo em uma direção. E parecia que da mesma direção vinha uma nuvem em formato de luz. Como se fosse uma nuvem azul, só que de luz.

            Sim, só podia ser um sinal. A pedra estava apontando para onde deveria ir. Tentou acertar alguns galhos na pedra. Depois de algumas tentativas acertou um pequeno mas pesado galho em cheio nas costas daquela pedra ambulante. Nada aconteceu. A pedra continuou se rastejando. Mas o engraçado era que quanto mais a pedra andava mais parecia que estava perto. Talvez a árvore que estava também estivesse caminhando por ai. Não, isso iria além do seu limite de compreensão. Não era possível.

            Deixou de ter medo e pulou da árvore. Foi até perto da pedra com um galho na mão. Ela não parecia ameaçadora, era uma pedra de tamanho médio,  musgo amarelo, devia estar na casa dos 20  séculos e tinha formato arredondado. Poderia fazer um retrato falado se fosse pedido. Então deixou a rocha para trás e começou a seguir a nuvem de luz. Que as vezes parecia sumir e as vezes parecia estar mais forte.

            Depois de muito caminhar sentou-se para descansar e ouviu um barulho. Estava de costas para um rio e não havia percebido. O barulho era de algo que havia caído na água. Quando levantou e olhou na direção do barulho não viu ninguém. Mas ficou imóvel e incrédulo com o que via. Imaginava que ver  criaturas jamais vistas e paisagens jamais pisadas, mas não imaginava conhecer algo como aquilo. Era como se fosse mentira. Como se fosse algum truque de cinema ou algum efeito especial. Não sabia explicar se era só uma ilusão de ótica ou realmente se tratava de um rio de luz. A luz azul que seguia devia vir daquele rio. Era um simpático rio, cercado por mata densa que não tinha água, mas tinha nuvens de luz deslizando pelo seu curso. Era como se fosse água só que era luz. Era como se uma coisa que não é feita para aquilo fosse usada para aquilo. Como se o chão fosse o teto e o teto o chão.

            E então, descobrira o que havia caído na água. Quando ela colocara a cabeça pra fora da luz, conseguiu ver como era bonita. Com certeza era uma nativa que conhecia muito bem aquela região. Conhecia os caminhos, os seres mágicos e poderia levá-lo até sua sociedade ideal. Mas ficou com medo e se abaixou. Afina, ela poderia não querer nenhum estranho pro ali. Como não pensara naquilo? Com certeza, essas pessoas que tem o privilégio de viver em um lugar como aquele não queriam que estranhos que vem da selva de pedra estivesse por ali. Não sabia se iria sair daquela ileso. No fundo sabia. Sabia que não sabia. E sabia que deveria saber mais. Se soubesse mais não estaria em uma situação como aquela. Mas agora era a realidade e tinha que lidar com ela. Tinha que lidar com o ser mágico que estava saindo do rio e tinha sair daquele lugar, ficar vivo.

            Ao chegar a beira do rio ele ouviu a voz dela. Disse que não era para ele olhar enquanto ela saia. Ele, que achava que estava escondido ficou imóvel e além de não conseguir tirar os olhos da nativa, também não conseguiu fugir e muito menos reagir. Ficou vidrado olhado o corpo molhado saindo do rio de luz e andar em sua direção.

            Quando chegou perto a nativa segurou seu braço. E dizendo que tinha dito para ele não olhar o puxou e começou a caminhar. O levou para debaixo de uma copa de uma árvore muito grande e os dois se sentaram em uma grande e confortável pedra. Ele contou o porquê de estar ali e contou também sobre sua expedição, por onde passara e o que havia visto naquela noite. Não parou de falar depois que começou. Parou quando ela colocou suas mão enfrente a sua boca e sorriu para ele. Nessa hora, percebeu como aquele ser mágico era tão humano quanto ele. Tão normal quanto ele e ao mesmo tempo tão diferente. Ficou perplexo com uma beleza tão distinta, uma beleza tão surpreendente. Era como se ja tivesse visto milhares de mulheres parecidas com aquela e não tivesse as achado belas. Mas naquele lugar e naquela situação ela era linda. Mas não estava apaixonada, simplesmente ficou assustado com tamanha beleza fora de padrão.  Ela juntou algumas folhas no chão e os dois se deitaram. Ela disse que não deveria falar nada. Que ele deveria observar o que tinha a sua volta melhor, e quando conseguisse estar em harmonia com o que via conseguiria entender tudo.

            E quando acordou, percebeu que  ja estava de manhã. Estava sozinho e não se lembrava da nativa indo embora. Se levantou rápido, deu alguns gritos sem resposta e rondou o local para encontrar alguma pista. Quando avistou o rio, era um rio normal. Era um rio como qualquer outro. A água era gelada, mas suportável. Deu alguns goles de água e se lembrou da sede que estava quando chegou ali. Não sentia cede quando acordou, provavelmente ja devia ter bebido água. Ou não estava com tanta sede quanto pensava.

            Então juntou alguns troncos e voltou a seu plano inicial. Fez uma pequena jangada e concluiu que o certo seria descer o rio e chegar até a costa. Seria a única maneira de encontrar um caminho de volta para casa.

            Ficou pensando na mulher que encontrara e ficou arrependido de ter falado tanto e perguntado tão pouco. Mas se questionou se realmente a tinha encontrado. Se o rio de luz não existia, a mulher também deveria ser imaginação. Aquilo não saia de sua cabeça, mas começou a perceber que talvez devesse lidar com a realidade como ela é, como ela foi. Aquilo acontecera, sabia disso. Pode ser que tenha acontecido só para ele, mas tinha certeza que passou por aquela experiência.

            E depois de alguns dias de viagem pelo rio finalmente chegou até a costa. Durante o caminho, assistia a paisagem mudando em harmonia com a vegetação. As comunidade ribeirinhas também era diferentes umas das outras assim como as atividades que cada uma fazia. Começou a perceber como tanta gente e tanta coisa diferente podia viver em harmonia. Estava contente de estar vivo e bem. Mas guardava certa insatisfação de estar tão perto do paraíso que imaginava e ter perdido tudo. Não podia ter dormido, deveria ter forçado a nativa a contar tudo o que sabia. Mas pensou melhor e percebeu que talvez tudo aquilo tivesse sido coisa da sua cabeça. Que na verdade estava tão cansado e com medo que imaginou tudo aquilo, a nuvem, o rio, a moça.

            E ao chegar a costa, deixou a jangada para trás e desceu na beira do rio. Começou a desfazer sua mala para acampar ali por alguns dias, precisava de um pouco de descanso para começar a viagem de volta. E quando torceu suas roupas molhadas, a água que escorreu era azul. As roupas tinham a mesma cor de antes e pareciam roupas molhadas normais, mas quando torcidas, revelavam a nuvem azul que tinha visto na noite mágica.

            E como tudo o que vira, as roupas também se tornaram mágicas. Mas elas eram mágicas apenas para quem as torcia. Assim como tudo o que tinha na vida, era normal até chegar na verdadeira essência. Na essência, tudo era mágico. As pessoas que conheciam não eram mágicas até que ele se pusesse a conversar com elas, do mesmo jeito que as paisagens que virá não eram mágicas até que ele realmente reparasse nelas. Do mesmo jeito, o rio não era mágico até que ele o olhasse com sentimentos tão fortes. E a vida também não era mágica se não fosse vivida como deveria. Daquele dia em diante o jovem explorador deixou de procurar um lugar mágico, uma sociedade ideal e seres inimagináveis, dali em diante procuraria intensidade. Afinal, a vida é intensa.

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