Recordação

            Tinha certeza que ja havia visto aquela mulher antes. Estava sentada na mesa da diagonal a frente, talvez ela nem o tivesse visto.  Ela parecia muito diferente. Mas sabe como é o tempo, acaba mudando tudo. Inclusive, certa vez encontrara o melhor amigo da época de colégio. Conversaram por muito tempo. Relembraram muitas histórias. Mas não conseguia lembrar o nome e nem sequer o apelido do colega. Era incrível o poder do tempo. E dessa vez não era diferente, não conseguia se lembrar o nome, nem apelido e muito menos quem era a tal figura.

            Talvez fosse porque não ia muito para aqueles lados da cidade. Talvez fosse alguém que cruzou seu caminho em algum momento e agora vive uma vida muito diferente da sua. Pode ser que fosse o porteiro do colégio, por exemplo. Com certeza se o visse de novo pareceria familiar, mas não lembraria dele. Assim como o dono da padaria, que lhe dava balas de graça depois que ia comprar pão e leite com a sua mãe. Não se lembrava dele, mas ele havia sido muito marcante naquela época. É capaz que chorasse se soubesse do seu enterro, mas não saberia seu nome.

            E assim, começou a perceber quantas pessoas ja não haviam feito parte da sua vida e agora estavam perdidas em seus pensamentos. Começou a se lembrar de várias delas. O cara do pastel da feira. O dono da banca. A sua primeira namorada. Aquela professora que dava presente para todos no dia das crianças. O seu tio que sempre o levava no parque de diversão mas mudara para os Estados Unidos. O seu tio avô que trabalhava com seguros e o ajudou quando bateu o carro. Eram muitos. Talvez houvesse mais pessoas que não sabia o nome do que pessoas que ainda estavam em sua vida. Não saber o nome de alguém é um fato claro que de aquela pessoa ja não faz mais parte da história. Mas o engraçado é que muitas dessas pessoas foram quem escreveram algumas linhas da sua história de vida.

            E perdido nas lembranças sem nomes se tocou de algo. Não se lembrava de si mesmo nas suas memórias. Quando lembrava do cara do pastel conseguia visualizar uma imagem, uma lembrança. Como se estivesse ali, na frente da barraca azul, pedindo seu sabor favorito, vendo o cara fritando o pastel na hora enquanto fazia alguma piada. Mas não conseguia se lembrar de como era, quantos anos tinha, como estava vestido, de onde vinha, para onde ia…simplesmente não se lembrava de si mesmo. E como em um jogo, começou a  tentar se lembrar dele próprio nos momentos marcantes de sua vida: no seu casamento, na sua formatura, no dia em que seu cachorro morreu, no dia em que bateu o carro. Não conseguia se lembrar de fato. Conseguia enxergar alguma coisa as vezes, mas logo começou a se questionar se o que via era verdade ou apenas fruto da sua imaginação. E talvez fosse mesmo, talvez a vontade de lembrar criara falsas memórias. Ja havia lido sobre aquilo mas não se recordava do autor, muito menos o título da obra.

            E se ele não se lembrava dele mesmo, quem lembraria? Quantas histórias ja não havia feito parte e fora esquecido? Ou será que fora marcante na vida de muitos? Talvez tivesse nas lembranças de muitas pessoas por ai. Gostaria de saber como era lembrado. Gostaria também de encontrar essas pessoas e perguntar a elas se lembravam dele daquele jeito. Mas no fundo, não lembrariam o seu nome, mas sabia que lembrariam de como fora importante para suas histórias.

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  1. lindo!

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