Tic Tac

            Não o faria. Com certeza deixaria aquela pilha de papéis de lado e iria tomar o picolé que tanto esperava. Desde o inverno torcia para que o calor chegasse e pudesse, então saborear um belíssimo picolé. Não fazia sentido tomar sorvete no inverno. Deveriam fechar todas as fábricas de sorvete no inverno. E todas estabelecimentos que comercializassem qualquer tipo de sorvete também deveriam ser penalizados. É uma agressão ao sorvete tomá-lo no inverno. Achava que tinham coisas na vida que foram feitas para determinadas ocasiões. Sorvete era uma delas. Foi feito para comer no calor e ponto. Essas histórias de que o sorvete foi inventado pelos esquimós é uma grande lorota. Que esquimó iria querer uma massa gélida e desconfortável ao frio? Com certeza a seleção natural já havia cuidado desse tipo de esquimós. Mas o que importa é que já  havia deixado o escritório e agora seguia com um foco claro: a sorveteria da rua do correio. Seguia como se não houvesse mais nada em sua vida. Sem olhar para os lados, desviava dos transeuntes com agilidade e dava passos cada vez maiores e mais velozes. Eram apenas 9 horas da manhã mas era o primeiro dia de verão. Tinha de aproveitar. Esperara por aquilo por tanto tempo que agora não podia mais aguardar. Odiava o frio. Todos sabiam disso. Era como se fosse duas pessoas diferente: uma quando sentia seus osso congelarem e rasgarem seus músculos e a outra quando sentia a luz bater no rosto de modo que não pudesse fazer outra coisa senão levantar e viver a vida intensamente. Essa segunda pessoa era animada, disposta e cheia de energia. Enquanto que aquela primeira pessoa, não tinha vontade de fazer nada. Nem fazer, nem pensar em nada. Essa era a meta. Quanto mais rápido o tempo passasse antes viria o calor. O problema é que quanto antes esquentasse, antes o inverno retornaria. A verdade é que era como se tivesse que acelerar o tempo e depois aproveitar cada segundo. E nesse vai e vem do tempo quem fica pra trás é o relógio que sempre marca o tempo por igual. Todos sabem que as vezes  o tempo passa mais rápido e as vezes parece uma eternidade. Mas era assim que era e era assim que continuaria vivendo, atrás do tempo e adiante dele. Chegara a rua do correio, já conseguia avistar a placa da sorveteria, não via a hora de passar pela porta. Dessa vez o que queria deixar para trás não era o tempo mas sim a distância que o separava do tão esperado sorvete. Quando chegou haviam e pessoas na fila. Quem tomaria sorvete a uma hora daquelas?? Uma delas era um menino que devia ter por volta de 12 anos e estava com o dinheiro contado, também devia estar esperando pelo verão. A segunda era uma senhora que parecia ter muita idade, como acompanhante tinha um enfermeiro que tinha exatamente o dobro do seu tamanho em altura e o quadruplo e volume de corpo. Era um daqueles enfermeiros que com certeza fazia bico de segurança de noite. O menino escolheu o sabor rápido, já devia ter algumas opções preestabelecidas. Pagou e saiu correndo. Provavelmente sua mãe o esperava em algum comércio próximo. A senhora deu alguns pequenos passos até o freezer que abrigava com carinho e conforto uma serie de picolés dos mais diversos sabores. Quando chegou bem perto ficou parada olhando e cochichou algo na direção do enfermeiro. O gigante curvou as costas e deu uma resposta curta. Em seguida, os dois ficaram parados observando o freezer por mais alguns momentos. Quando estava impaciente quase que ao ponto de perguntar se precisavam de ajuda o enorme ser humano que estava a sua frente estendeu os braços e pegou 8 picolés, um de cada sabor. Os movimentos foram lentos porém precisos. Tudo aconteceu com muita calma e em silêncio. Não entendeu se ele estava apenas escolhendo ou se obedecia a ordens da senhora. Não entendeu nada, mas estava curioso para entender o porque daquilo tudo. Porque uma senhora com tanta dificuldade estava ali naquela sorveteria de bairro comprando 8 picolés, um de cada sabor, as nove horas da manhã, acompanhada de um brutamontes com gigantismo. Aquilo realmente o tocara. Mas mais importante que a senhora era o picolé que o esperava dentro daquele freezer. De qualquer maneira iria tentar descobrir quem era aquela, talvez na fila para pagar fosse uma boa oportunidade. Como de costume escolheu o sabor que mais lhe parecia estranho. No início do verão deixava seus gostos de lado e como que uma oferenda comia o sabor mais esquisito que encontrasse. Fazia parte da sua energia do verão, gostava de experimentar coisas novas e buscar sensações inusitadas. Ficou em duvida de já começava a chupar o picolé ali dentro ou dedicava um tempo em um lugar diferenciado. Talvez fosse até a praça que era logo adiante e ficasse por ali um pouco. Na fila para pagar imaginou algumas possíveis abordagens para desvendar o mistério da senhora, mas ficou um pouco intimidado pelo segurança de branco. A velhinha começou a mexer em um daqueles porta moedas típico da terceira idade. Depois de checar se ali havia a quantia suficiente entregou a bolsinha para o enfermeiro, que tirou um cartão de crédito e pagou o lote de picolés. Quando estavam se virando para sair fez um movimento de aproximação mas se arrependeu e foi direto ao caixa pagar. Pagou rápido e saiu, a velhinha andava pela calçada acompanhada de seu enfermeiro. Começou a andar na direção deles e, quando estava bem perto, pediu licença e começou a falar. Explicou que aguardava pelo verão todos os dias e que o sorvete era a motivação para esperar tanto tempo. Contou como sempre gostou de sorvete e sua teoria de que o sorvete só pode ser comido no verão. Depois de muito falar perguntou o porquê de uma senhora estar aquela hora comprando aquela quantidade de sorvete. Ela respondeu que era um para cada minuto. Como estava com cara de quem não entendeu nada, o enfermeiro lhe explicou. A velhinha também amava sorvete e também amava o verão. Ela havia sido recordista olímpica nos 100 metros e quando não tinha mais idade para competir trocou os treinos pelos esportes radicais. Na sua época, quase não existiam equipamentos e a infraestrutura que havia hoje. Portanto era realmente radical. O enfermeiro contou rapidamente que aquela senhora já havia escalado montanhas, pulado de paraquedas em mais países do que sua mente podia contar e já havia sobrevivido a trilhas complexas em matas fechadas e, por incrível que parecesse ela já havia surfado algumas ondas gigantes. Mas até ai nada da explicação dos 8 picolés, ou 8 minutos. Então, o homem de branco contou que ela sempre fora tão aventureira porque tinha uma teoria de vida. Um lema que levava com ela todos os dias. Ele revelou que se o Sol explodisse, demoraria 8 minutos para que tudo se acabasse. Portanto, a vida deveria ser vivida intensamente uma vez que nos 8 minutos finais não poderia haver arrependimento. Por isso ela comprou 8 sorvetes, um para cada minuto. A explicação era que depois de velha já não podia mais se aventurar como antes e a maioria das atividades que gostava de fazer já não podia mais. E, além disso, seus amigos e parentes já haviam morrido em grande parte. Os que restavam estavam mais debilitados que ela. Então, ela gostava de tomar sorvete no verão porque ele era tão intenso e gelado como a vida deveria ser. Era contrastante. Era extremo. Por isso que estavam ali, aquela hora comprando sorvete. Agradeceu pela explicação e saiu andando em silêncio. Os pensamentos na sua cabeça reviravam toda a sua vida e começou a se preocupar com o tempo, o seu tempo, o tempo de vida. Percebeu que não podia passar o inverno inteiro sem fazer nada prazeroso e que o fizesse sentir vivo. No mínimo deveria tomar alguma coisa muito quente. Não sabia muito bem o que faria, mas pensaria muito em algo. Teria que fazer algo tão bom quanto tomar sorvete no verão, tinha de ser algo sensacional O que importa é que a essa hora o sorvete já estava quase inteiro derretido e a ansiedade para a chegada do inverno começava a crescer.

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