Iluminante

            A luz aumentava conforme a distancia do trem diminuía. Quando chegou a essa conclusão parou para pensar se na verdade as coisas que estavam a sua volta é que diminuíam com a chegada do trem. Aquele efeito de distância era alucinante. Sempre parava para pensar no tamanho das coisas. Um país é gigante, uma sala é pequena. Mas uma sala pode ser muito grande perto de um formigueiro. Como um país pode se tornar minúsculo perto de plutão, que foi até rebaixado por conta do seu nanismo. E todas essas dimensões e escalas causavam grandes alterações no seu raciocínio e na forma de se relacionar com o mundo.

            Talvez ficasse louco um dia, começasse a andar para sempre. Está no quarto, quer o chocolate que está na cozinha. Tem que deixar o cobertor de lado, afastar as coisas do caminho andar pelo corredor, passar pela sala, atravessar outro corredor, abrir a porta, pegar o chocolate atrás do pote de café no terceiro armário da direita para a esquerda. O caminho de volta só Deus sabe. Se está no Brasil e quer um pastel de Belém legítimo deves pegar um avião desembarcar pegar um taxi, conseguir uma mesa, fazer o pedido e comer. O caminho de volta só Deus sabe. O que muda são as dimensões, mas da mesma maneira são várias etapas até chegar a qualquer lugar. Mas dentro de casa tudo parece mais perto porque estamos acostumados. Assim como aquele executivo que aguardava o trem na fila ao lado, provavelmente o mundo era pequeno para ele, já devia ter viajado tanto que estava acostumado. É tudo uma questão de se acostumar com as dimensões. Por isso, ganhava da preguiça com esse raciocínio: para chegar até o restaurante que fica no bairro do outro lado da cidade é só andar até lá, assim como é só andar até a cozinha para pegar o chocolate, só seriam etapas diferentes.

            Se imaginava no meio de uma estrada ensolarada e empoeirada, andando. Todos os caminhos são caminhos quando não se tem destino. Para a luz do trem que se aproximava aos poucos, talvez só houvesse um caminho. Mas não era justo comparar o destino daquela lanterninha com o destino de um ser humano. Eram patamares diferentes de existência e complexidade. Sabia que tinha uma mente, um inconsciente e todas essas jogadas psicológicas que revelam e escondem parte de nós. Mas o que importava era que a luz fazia todos os dias o mesmo percurso. Talvez já tivessem trocado sua lâmpada algumas vezes, mas a iluminação continuava cumprindo sua função de iluminar e o caminho continuava cumprindo sua função de ser caminhado. Mas no caso do humano, tudo mudava todos os dias. Era preciso ver sentido no que fazia para que as distâncias parecessem menores. Caso contrário a cozinha seria tão distante quanto a pastelaria de Portugal.

            Por isso, andaria. Andaria para todos os lados, e as distâncias se tornariam menores. Quanto mais andasse, mais acostumado estaria e mais rápido iria perceber que chegou. Só não tinha um destino ainda. O que tinha era uma luz que aumentava a cada instante e, por sua vez, ofuscava os olhos de quem a via. Estava ficando cada vez maior, cada vez mais próxima, cada vez mais cada vez.

             

             

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