Caminhadura

            Demorou para perceber se a sirene vinha de trás ou do outro lado da pista. Em meio aquele trânsito era difícil prestar atenção nessas coisas. Estava em cima do viaduto fazia mais de uma hora quase no mesmo lugar. Sempre que ouvia uma ambulância ficava pensando quem estaria dentro dela, para onde ia, de onde vinha. Mas uma coisa não saia de sua cabeça, quem dirigia.

            Conseguia sentir na pele o estresse e o nervosismo do motorista que carregava nas costas algumas vidas por dia. E tantas outras estavam no seu caminho. Era como se fosse Deus e Dona Morte ao mesmo tempo. Se por um lado podia salvar alguém, pelo outro podia levar para o reino da morte. Parecia algo sombrio, mas se passava na sua cabeça de maneira clara e objetiva. Nada de drama ou trevas. Era apenas um dos milhares de motoristas de ambulância do mundo que tinham vidas nas costas.

            Ficou se imaginando no papel. Com uniforme, chapeuzinho e tudo, como em um filme. Talvez não tivesse chapeuzinho, mas não sabia porquê havia imaginado um em sua cabeça. O radio chamava e estaria pronto para chegar ao outro lado da cidade e salvar uma vida. Se tratava de uma operação de alguns minutos. Desviaria dos carros no caminho pela faixa de ônibus, pela contramão ou no semáforo vermelho. Não importavam as leis. Não haviam leis no céu e muito menos no inferno. Já estaria morto mesmo. Então no seu furgão branco também não existiam leis. Trabalhava em compasso com o além.

            O destino era próximo a uma fábrica abandonada na periferia da cidade. Já podia avistar as chaminés distantes. Mas não conseguia entender como chegaria ali, elas pareciam estar encrustadas no meio de um quebra cabeça de barracos e casas de alvenaria. Provavelmente era um terreno tomado há algum tempo. Quando chegou mais perto percebeu que já devia haver bastante tempo que aquelas famílias moravam ali. Entrou por uma viela virou a esquerda. Outra, mais uma, outra virada, seguia reto. A direta. Outra viela, mais a frente. Pessoas acenando, era ali.

            Quando parou a Ambulância, saíram os anjos. Os enfermeiros logo tiraram a maca e colocaram a mulher imobilizada dentro do furgão. De relance reconheceu a vítima de derrame. Era sua babá, que seus pais disseram que havia voltado para Bahia. O rosto branco foi consequência dos batimentos cardíacos descontrolados e das emoções que se contorciam no seu peito. O susto causou imobilização instantânea cinematográfica. Aquela paradinha que passa um filme em velocidade acelerada seguida de uma injeção de adrenalina no sangue.

            Quando era menino a diretora da escola pediu uma reunião. A queixa era de choro e dedo na boca com 9 anos. O motivo inquestionável era a babá que mimava muito. Os pais ausentes detinham a razão. O menino não tinha decisão.

            Assim, a babá foi embora dizendo que ia cuidar da sua família na Bahia. As lágrimas que pareciam de emoção escondiam a conversa que tivera com os pais momentos antes. De um dia pro outro ela havia ido embora.

            Agora aparecera. Nas suas costas. Era mais uma vida nas costas de um motorista de ambulância. Se corresse talvez pudesse salvar a velha. Queria ouvir a história dela, entender como fora parar ali. Viela, esquerda, descida. A frente. Direita, esquerda, direita. Outra viela depois de mais uma. Nas avenidas corria, nas ruas corria, nas alamedas corria…a esperança é a última que morre. E é mesmo, primeiro morre a vida nas costas, depois o motorista, a esperança só se da conta quando está do lado de lá.

            Foi quando ouviu uma buzina vindo de trás. Estava parado em cima do viaduto e os carros da frente haviam andado alguns metros. A sirene não vinha nem de trás e nem da outra pista. Era apenas uma ambulância passando debaixo do viaduto em sentido ao outro lado da cidade.

            

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