Querer é poder

            Conforme o carro se afastava podia lembrar dos tempos que haviam passado. Agora seria um novo caminho. Uma nova vida. Novos tempos. Talvez não novo, mas diferente. Talvez não tão diferente, mas distante. Em alguns momentos embarcaria em um voo e só desceria há um bocado de horas dali. Ficou em estado estático assistindo o carro se afastar e por instantes pensou em simplesmente voltar. Mas sabia que não poderia. Parecia não ter cabimento o que estava fazendo.

            Poder, poderia, mas não queria. Sabia que nessa vida tudo pode. Tudo é uma questão de escolha. Só deveria arcar com as consequências. Se quiser pular de um prédio pode, mas vai se machucar ou morrer. Se quiser reagir a um assalto também pode, mas também tem risco de sair mal. Pode apostar na loteria e perder, ou ganhar. Tudo pode, só não pode achar que as consequências não virão. Virão. E virão como dois e dois é quatro.

            E nessa conta sempre tem alguém tentando tirar vantagem. Era isso que fazia ali, parado em frente ao aeroporto. Pegaria 3 voos nacionais seguidos, 4 ônibus diferentes e uma pequena viagem de carro. Estava tentando contornar as consequências dos seus atos. Fez o que queria, agora estava tentando se safar.

            O carro que o deixara ali era uma lata velha. Porém, o motorista era o mais recente milionário da cidade. Que deu carona ao segundo mais recente milionário da cidade. A ordem não importa. O que importava é que o motorista ficaria ali mesmo. Enquanto o passageiro sumiria país a dentro. A outra possibilidade era a falsificação de sua identidade, o que incluía uma serie inimaginável de cirurgias plásticas. Com certeza não seriam feitas na melhor clínica e sim na que estivesse a altura do seu status de criminoso.

            Desde pequeno queria ser rico. Desejo de todos que conheceu, conhece e conhecerá. Mas escolheu um caminho mais rápido, mais emocionante e, talvez, menos desejado. Mas só se tocara agora. Olhava os rostos a sua volta e a paisagem que podia ver da cidade dali, da entrada do aeroporto. Pensou que não veria aquilo tudo nunca mais. Lembrou da infância, da escola, dos amigos, da sua primeira namorada, do filho que nunca conheceu. Teve vontade de largar as malas e encarar o que lhe esperava. Mas percebeu que de nada adiantaria. Ficaria atrás das grades por tanto tempo quanto todos o pudessem esquecer. E a luta travada era justamente entre sua memória e as consequências de ser um ladrão. Afinal, era isso o que era.

             O plano era que ficasse foragido por tempo suficiente para esquecerem do caso. Depois voltaria para algum lugar mais próximo, com uma identidade falsa, mas sem cirurgias ou grandes disfarces. Mas sabia que isso levaria no mínimo duas décadas. Um bocado menos do que ficaria na cadeia e um bocado mais do que as pessoas que queria ao seu lado podia lhe esperar. Estava rico e sozinho.

            Colocou a bagagem no carrinho e foi em direção ao balcão de informações. Queria mudar o seu destino. Sabia que não podia sair do país, mas queria que ninguém soubesse para onde ia. Inclusive o motorista que o deixara ali. Se fosse pego poderia denunciá-lo. Olhou os próximos voos e montou um roteiro de ultima hora. Agora tinha as passagens antigas e as novas na mão. Podia ir para os dois lugares. Bastava escolher no salão de embarque. Não lhe importava as bagagens. Iria sacar o dinheiro no destino final. Nada o prendia as bagagens, nada o prendia aquele lugar, nada o prendia ao destino.

            E era isso o que lhe deixava tão aflito. Nada o prendia. Estava completamente liberto. Tinha dinheiro para ir onde quiser. E tinha cerca de oito dias para se mandar. Era o tempo máximo que calcularam para que o crime fosse descoberto. Mas, no fundo, sabia que poderia demorar mais.

            Mas tanto fazia o tempo que demorariam para perceber que o sarcófago estava vazio. Queria estar preso a algo. Preso a alguém. Soava estranho pensar que queria estar “preso”. Mas era isso. Queria um amigo. Uma mulher. Uma família. Pessoas. Pessoas a quem fosse obrigado a dar satisfações, a quem estivesse algemado. Trabalho. Compromissos. Responsabilidade. Queria ficar estressado de tanto trabalhar e depois tirar férias em um lugar onde seu filho se divertisse.

            Estava orgulhoso. Mas não bastava. Havia realizado o maior e melhor furto a um museu. Levou a tal múmia embora e ninguém sabe até agora. Descobririam quando fossem fazer a manutenção da sala onde ficava o sarcófago. De tempos em tempos trocavam as lâmpadas que mantinham o lugar a uma certa temperatura, espalhavam produtos e frescurites no corpo de mileanos para preservá-lo. Essa revisão de quilometragem estava marcada para daqui a oito dias. Era o tempo máximo. O mandante do crime era uma incógnita. Mas pagou uma parte antecipado e uma parte quando o seu comparsa motorista levou o produto. Nunca vira tanto dinheiro em sua conta.

            Mas as lembranças do crime estava cada vez mais distantes e menos nítidas. Chegava a passar arrependimento pela sua cabeça. A sensação de vitória que enchia seu peito quando saíra do museu não era mais palpável. Não tinha mais aquilo. Esquecera que os sentimentos passam. Que não passam de uma onda química na sua cabeça. Que tinham de ser renovados. Assim como as lâmpadas do museu.

            E percebeu que o dinheiro podia se multiplicar ou dividir-se, mas seria sempre dinheiro. Uma nota de cinquenta é igual a todas. Dinheiro sempre seria dinheiro. Sabia que era necessário e que era o que queria. Mas queria também outras coisas. Coisas que estava deixando para trás e talvez nunca mais pudesse recuperar. Mas na vida tudo pode. Talvez o caminho que seguiria dali para frente fosse bom. Faria o que pudesse para ter de volta um punhado de sentimentos.

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