Mosca

            Uma mosca não é nada…quando passa pelos lugares e coisas as moscas não deixam vestígios. É difícil saber se uma mosca passou por um cocô de cachorro na rua ou se esteve sob um belo filé sobre a pia. Ela simplesmente passou por lá. Mas nunca há moscas onde não há nada. Se tem mosca, tem alguma coisa lá. Nunca foi vista uma mosca onde não houvesse sujeira, ou qualquer substância orgânica em decomposição.

 

           

 

            A investigação se iniciou quando a denúncia foi feita. Afinal, uma ligação feita sob supervisão de uma família como aquela era de suma importância na pequena delegacia da região. Se tratava de um dos funcionários da família dona de 2 ou três metades do comércio e fazendas da região. Havia acontecido um roubo seguido de morte durante uma festa e o crime só havia sido descoberto na manhã seguinte. O ladrão atirara em uma moça de 23 anos no closet dos donos da casa, que estavam viajando. Os filhos, que deram a festa, só se deram conta por causa das moscas que infestaram o quarto dos pais.

            O detetive chegou a mansão e logo foi recebido. Na sala, uma cena típica de uma manhã pós festa. As latas de cerveja, copos, garrafas e cinzeiros pareciam milhares de formigas atacando um bolo de chocolate. A área estava isolada então nada havia sido tocado.

            Ao chegar no quarto, a porta do closet estava aberta assim como a do cofre em frente ao corpo no chão. A Equipe de balística já havia passado por lá e o único vestígio que deixaram foi a manta térmica sob o corpo e um relatório que dizia que o tiro foi dado a queima roupa no coração, com silenciador. Um tiro decidido e exato. Não havia nenhum tipo de sinal no corpo que indicasse violência ou que a vítima fora amarrada ou amordaçada de alguma maneira.

            Mas ninguém conhecia a vítima. Ela entrou e passou pela festa e ninguém sabia dela. O seu conhecimento veio junto com o cofre aberto e todas aquelas moscas. Não era empregada e nem ex-empregada da casa. Inclusive nenhum funcionário disse o rosto familiar. Mas se estava na cena do crime tinha algo a ver com o roubo.

            Talvez fosse uma comparsa traída ou uma amante comparsa traída. Talvez fosse uma coitada em hora e lugar errado. Talvez fosse um acidente. Talvez não fosse nada. Mas o detetive teria que dar algum título e causa para aquele defunto. E começou excluindo as opções que a vítima não poderia ser.

            Se ninguém a conhecia, não era convidada. Se ninguém a vira na festa não é acompanhante de ninguém. Suas digitais não estão em lugar nenhum, nem no closet. O que indica que o criminoso seguiu os seus passos e os apagou ou ela sabia que não podia deixar rastros. Ficava com essas duas ultimas. Ou era comparsa ou foi seguida.

            O detetive começou pela cena do crime. Não havia nada fora do lugar no closet. Inclusive alguns dólares que eram guardados em uma gaveta ainda estavam lá. Sinal de que o alvo era planejado e específico. O cofre estava aberto e não havia nenhuma impressão digital e nenhum vestígio. Se o corpo não estivesse ali não perceberiam o roubo tão cedo. A equipe de perícia já estava lá e começou um exame minucioso no cofre com substâncias químicas e ferramentas futuristas. Uma pista. Esquisita, mas uma pista. Foram encontradas marcas que tinham o formato de um dedo. No exame de composição foi indicado entre outras substâncias uma que ao entrar em contato com o ar fica gelatinosa e seca, formando uma película protetora. Era usada para esfregar nas mãos e esconder as digitais quando ainda não haviam luvas de borracha. Essa substância inibe a percepção nos dedos fazendo parecer que estão anestesiados. Mas o que foi encontrado ali, era um colírio que tinha em grande quantidade na sua composição a tal substância. Talvez por conta de esta ter a venda proibida, o criminoso optou por usar o próprio colírio nos dedos. Talvez por isso  tenham ficado as marcas de dedos.

            A únicas pistas eram o formato de alguns dedos e um cadáver sem identificação. Mas o valor roubado e o nome da família não permitiriam um caso sem solução. Não podia que uma mosca passasse pela sua residência, se alimentasse de suas fortuna e ainda deixasse sujeira no seu closet.

             

            

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