História de Verão

            Era um dia de Sol, como todos os outros. Pensou isso como se todos os dias de Sol fossem iguais. Nenhum dia era igual. Nenhuma momento sequer era semelhante. A cada momento que passa, tudo muda. Seu corpo muda. Suas células morrem e renascem. Cabelos caem para dar o seu lugar aos calouros fios de cabelo. A água evapora. O gás carbônico realiza seu ciclo assim como o nitrogênio e o oxigênio. Este último, tão necessário a vida quanto o calor do Sol.

            O mundo continua girando. Nada pode lhe parar. Mas gira igual. É um fenômeno. Como todos os ciclos naturais, se trata de um fenômeno. Diferente daquele dia de Sol. As ruas estavam com as bochechas rosadas e a testa banhada em suor por causa do calor. Os orelhões escorriam números que caiam desidratados no chão. O asfalto se confundia com as solas dos sapatos que, como manteiga em uma frigideira, derretiam de maneira glamorosa.

            Era um típico dia de calor, como todos os outros. A diferença é que ao invés de ter suas roupas em chamas e uma torneira nas costas, estava vendo tudo de dentro de uma capsula com o ar devidamente condicionado. Podia se lembrar de quando acordava cedo nos dias de verão para entregar jornal. Quando saia cedo estava um tempo agradável embora ainda fosse de noite. Mas na volta para casa, antes da escola. Parecia que havia caído em uma piscina por engano quando fora entregar o último jornal da vizinhança. Como se a grama do jardim terminasse quando a piscina começasse.

            Mas agora isso era passado. Havia simplesmente passado. Portanto, não era mais presente. Parecia óbvio. Mas seu cérebro lembrava de tal cena como se fosse um filme. Sendo assistido e não protagonizado. E seria isso o que aconteceria dali para frente. Lembraria de um personagem bem vestido assistindo a rua escaldante de dentro de uma sala confortável e seca pelo frio. A sensação que assistiria seria de salvação, mas o gosto seria de destino. Sabia que em breve sairia daquela sala, passaria pelo hall de entrada habitado pelo ar estático e pesado, em seguida estaria no elevador, que dinâmico como a sua personalidade o conduz, carregaria o cheiro de quem esteve por ali antes: “Tem dias que tens azar tens dias que tens sorte”. A cena do elevador fica para trás quando a garagem invade a boca do palco. Silenciosa, os barulhos de canos, estalos e água são constantes. Você sabe que eles estão lá e que vão aparecer. Só não sabe exatamente em que ordem e como. São fantasmas que não se sabe de onde vem mas sabe que virão. Então, os cheiros, barulhos, frio e calor deixam a cena para que a Paz apareça como aparece um cachorro no meio dos carros. Rápido e de repente se torna o centro das atenções: o trânsito para, os protetores esperam o animal deixar a zona de risco, os apressados buzinam, tudo passa. Foi uma cena de cachorro no trânsito, como todas as outras.

            Sim, a Paz. O barulho que a antecede é o do alarme do carro, as trancas das portas abrindo, o grunhido do couro com a calça do paletó. Suspiro. O dia passou, acabou. Mais um dia de sobrevivência. Longe do calor, longe dos sapatos derretidos pelo asfalto. Longe da bicicleta e dos jornais. Longe da capsula de ar condicionado. Longe do cachorro no trânsito. Longe do ar parado do hall. Uma lembrança.

            Era um dia de Sol, como todos os outros. 

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