No quintal da memória

            A sensação era a mesma só que ao contrário. Quando chegou a sala, estava vazia e pequena. Parecia que tinham tirado um pouco da cor de tudo, e um pouco de tudo também. A lareira continuava lá, alguns móveis também. Mas era tipicamente uma casa abandonada: aquela que muito guarda mas pouco diz. A sensação era clara: o tempo parou em sua mente, parou naquela casa, mas não parou em seu coração. A casa de campo de sua família jamais seria a mesma. Era essa a conclusão final, não havia mais o que supor ou o que pensar a respeito, a casa já era, todos já era.

            E foi assim que continuou andando pelos corredores e quartos. O mix era de lembranças, com tristeza, com arrependimento. Queria que tudo acontecesse ali novamente. Na sua memória a família passava as férias inteiras naquelas casa. Fazendo de tudo. Enquanto as mulheres mais velhas revezam entre os filhos e a cozinha, as mais novas pulavam da balança do jardim para a paquera no centro da cidade. Era incrível como em apenas um ou dois anos as pequeninas princesas viravam mulheres independentes e cheias de vontades. Pelo menos era como tentavam se comportar: mulheres independentes e libertas. E era isso o que fazia ali: buscava sua liberdade de novo.

            Naquele tempo tinha tão pouca idade que tudo podia e tudo fazia. Não tinha nada disso de ficar se preocupando em ficar bem nessa história de vida. O dilema do dia era se iriam nadar no rio primeiro ou fazer guerra de esguicho no enorme gramado que, no final da tarde, era escalado para campo oficial de futebol para o campeonato interfamiliar mundial entre os velhos e novos. Os pais disputavam uma ferrenha pelada contra os filhos que variavam de aborrescentes a “cafés com leite”. Esses últimos eram protegidos e tinham alguns gols liberados, já aqueles que passavam as noites preocupando os miolos de seus pais não tinham perdão, passariam os mais difíceis momentos de jogo dentro daquele enorme campo.

            O mato estava alto e havia até algumas tímidas árvores tomando proporções maiores que a altura dos balanços enferrujados. E não é que o campo tivesse diminuído, só parecia muito menor do que se lembrava. Ali fora, caminhava se lembrando da sensação que tinha ao sair correndo de dentro de casa depois de ter aprontado alguma. O gramado parecia uma pista de pouso dos inocentes, saia correndo em círculos e dava voltas ao redor da piscina, era como um terreno de salvação: em movimento não podem capturar essas crianças arteiras que mais se mexem do que falam.

             Tudo parecia menor, tudo parecia sem vida, tudo faltava. Mas ao mesmo tempo, tudo lembrava. Tudo lembrava algo ou alguém. Uma história, um dia, uma brincadeira, uma comida. Se pegou rindo. Lembrara de uma história daquelas “o dia que…”.  Sabe aquelas? “O dia que eu ganhei um cachorro”, “O dia que meu irmão quebrou o braço”,  “O dia que papai e mamãe brigaram e…”. Eram varias dessas por ali. Cada detalhe que via podia se lembrar de uma dessas. Era uma pena que não pudesse se lembrar de todas.

            E nunca lembraria. Viveria com apenas a certeza de que não se lembraria de tudo que passou. Talvez os melhores momentos tenham sido esquecidos. Jamais saberia. E se havia ido até ali para tentar lembrar de algumas coisas, percebeu que esse era um jeito de perceber do quanto ja foi esquecido. Não estava arrependido. Quem sabe fosse bom perceber que o tempo passou e tudo mudara. O problema era perceber como nunca seria iguala antes. Nunca teria 6 anos de idade, e nunca estaria toda a família reunida naquela casa novamente.

            Foi nesse momento que percebeu que a única coisa a que podia se prender era o fato de que a memória seria perdida e, por mais que quisesse guardar um momento para sempre, não conseguiria se lembrar e sentir como, exatamente ele foi. Nesse instante ficou feliz por ter passado tudo o que passou ali. Estava triste por não conseguir sentir de novo a sensação que queria. Mas por um outro lado, estava feliz por ter sentido tantas coisas naquele lugar e se lembrar de que havia sentido. Não queria ter se esquecido de tudo. Não queria ter ficado em casa e nunca mais ter sentido o cheiro da casa de campo. Ela seria vendida e, muito provavelmente demolida, em breve. Por conta disso, sabia que perderia para sempre aquele lugar e suas lembranças. Ficaria apenas com o que sempre teve, desde pequeno: uma cabeça cheia de ideias, memórias, sensações e sentimentos. Não perderia sua essência, ela apenas se modificaria aos poucos. Do mesmo jeito que não perderia sua liberdade, ela estava dentro de si como sempre esteve: bastava se permitir.

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