Descabeçado

Podia sentir o cheiro de sangue no ar. Mas não de sangue fresco. A matança devia ter começado há tempos. Agora, todo o sangue que escorreu daqueles corpos deve estar preto e seco. Nem um abutre reconheceria uma carniça por ali.

Seus movimentos eram lentos e pré-estipulados. Podia imaginar uma planilha em sua cabeça com alguns itens a fazer: coçar a testa meticulosamente com a ponta do clips, fechar os olhos como se tudo ao seu redor estivesse em chamas, rir sem motivo algum como se tudo aquilo fosse uma piada. Era um teatro. E como de costume nos teatros: eram personagens. Tudo não se passava de uma peça. Mas não era nenhum diretor famoso ou teatro reconhecido. Os crimes aconteceram apenas dentro de carros. Carros oficiais. Todos iguais. Uma linha de desmontagem fabril. Entrava arrancava a cabeça e saia. Entrava arrancava a cabeça e saia. Entrava arrancava a cabeça e saia. Essa era a cena que deveria fazer, assim como as ceninhas que estava fazendo na sala de interrogatório.

Foram mais de quarenta casos. Desde assistentes de gabinete, estagiários até deputados, juízes e grandalhões das empresas que estavam envolvidos com esse pessoal. A meta era matar e foda-se. Foda-se. Família: foda-se. Cadeia: foda-se. Justiça: foda-se. Se não iriam fazer nada a respeito, faria por conta própria. Não só faria como fez. Entrou em 47 carros oficiais e arrancou a cabeça dos alvos como quem abri um vinho no domingo de noite. No domingo, não no sábado. Aquele vinho despreocupado e sem cerimônia do domingo. Que acontece debaixo das cobertas e foda-se segunda feira e foda-se que o copo é de requeijão. Ploc, glub, glub e glub. Era assim que acontecia. Se havia mais de uma pessoa no carro não importava. Se não fosse capaz de arrancar a cabeça de todos então fazia o sangue espichar na cara dos outros. Costumava jogar a cabeça para algum deles e dizer: “pensa rápido”.

Era assim que esse povo trabalhava nos seus gabinetes. Cabeças rolando e cada um que se virasse para pensar rápido. Então era assim que trabalhava com eles na rua, onde não tinham segurança. Ou ainda nos estacionamentos dos seus respectivos prédios, conjuntos comerciais e propriedades por a ia fora. Ninguém o pegara até então. Era óbvio que não o pegariam, sabia disso. Um homem entra em um carro agarra um deputado estadual e com suas próprias mãos quebra o pescoço e arranca a cabeça do sujeito com a ajuda de um pequeno canivete. O que você faria? Sim, exato, olhos abertos, estáticos e amedrontados até que um esguicho de sangue abra na sua cara e você seja tomado pelo desespero físico e esteja coberto de nojeiras melequentas humanas. Até que consiga pensar em alguma coisa e se limpar com o que conseguir, estará gritando e enxergando, por entre as gotas de sangue e plasma que escorrem de sua testa, um cadáver descabeçado.

Com certeza estava sem cabeça quando o fez pela primeira vez. Talvez fosse por isso mesmo que tivesse arrancado a cabeça do canalha. Podia ter dado facadas ou surrado até a morte. Mas não. Não. Não. Não. Sim, arrancaria a cabeça daqueles marginais cretinos que acabavam com a vida de milhares de pessoas. Dos seus gabinetes, faziam com que todos aqueles favelados tivessem que deixar de ficar com seus filhos para pegar duas horas de ônibus. Por seu votos, faziam com que algumas leis que ajudariam alguns, mudassem. Por sua riqueza, tiravam dos mais ricos e ficavam com tudo. Por sua dignidade política infectavam com beijos os bebês dos pobres. E acima de tudo, por suas próprias vidas, afundavam a vida do país. Se um homem que rouba uma carteira merece ser preso e se o descabeçado que estuprara sua filha não merece justiça. Então eles mereciam perder a cabeça. Não achava que pena de morte mudaria a situação, ou a mudança na legislação penal. Aquele tipo de pessoa simplesmente não podia pensar, então, deveriam ter suas cabeças arrancadas. Essa era a lógica, essa era a tática.

E muitos ali naquela sala concordavam. Inclusive, do lado de fora do prédio alguns carregavam placas a seu favor e gritavam por sua liberdade. O próprio delegado e juiz que cuidariam do caso eram bem novos, os outros, mais velhos, mais experientes e mais encrencados não queriam correr o risco de estar na mesma sala que o protagonista. Sabia que não era o fim da peça, apenas um intervalo. Mas o público estava aflito, queria ver até o final, nos mínimos detalhes, era o grande irmão de todos. Era aquele que tudo via e, pela sua sabedoria, faria o que julgasse certo. Não importa como o julgariam. Assistiriam em suas casas, esperando o próximo. Só queriam o próximo, saber quem é e o que fez. Queriam ver sangue também, glub, glub e glub.

 

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