Endiabrado

O dia havia sido cansativo. Deitei minha cabeça no travesseiro e olhei pela janela. O céu estava preto. As nuvens pareciam enormes pedras penduradas umas a outras, prestes a cair.

Mas não havia tempo para descansar. Deveria enfrentar o cansaço e as pancadas de chuva que viriam de todos os lados. Peguei a bicicleta que me olhou com cara de choro. Tenho certeza que ela se preocupava com a corrente novinha em folha. Semana passada a antiga arrebentara de tanta ferrugem. O resultado foi uma longa e pensativa caminhada. O que não foi de todo mal. Fazia tempo que precisava de um tempo para abrir as porteiras da mente e deixar as ideias a vontade no pasto. O problema é que logo viria a chuva e as ideias ficariam a deriva.

Quando pedalo, me sinto flutuando. Como se a bicicleta tivesse o incrível poder de tornar tudo mais leve. Lembrei das aulas de física: energia cinética potencial gravitacional helicoidal meridional centrifuga do delta S do movimento. Incrível como ainda sabia das fórmulas. Só havia me esquecido do bhaskara. Mas acho que não usaria tão em breve. Nem me lembrava para que servia. O mais útil que aprendi foi sobre o ciclo da água. E pelo que bem me lembrava ele estava passando para a fase de precipitação.

Chovia mais eu não me molhava. Como nas aulas de educação física: quando iam escolher o time eu ficava por último, imune. Odiava, então torcia para que os times ficassem completos e o professor me dissesse que eu não precisaria jogar, que eu podia ir até a cantina e fazer um lanche. Nunca aconteceu. Os pingos eram gordos e violentos. Faziam barulho quando tocavam a calçada. Como se bolinhas de gude caíssem no chão de madeira da casa da vovó. A diferença é que lá não haviam trovões e lama. Na casa da minha avó.

Um pouco de lama talvez. Mas não era a chuva que trazia lama. Eram nossas imundas roupas que vinham diretamente do quintal do vizinho da esquerda, que me esqueci o nome. Os pais dele haviam se separado e a construção da casa parou na metade. O quintal deles era de terra. Haviam uma montanha de cimento, areia, pedras e muitos tijolos. Era uma carnificina da sujeira. Quebrávamos tudo que podíamos, misturávamos tudo que era possível e arremessávamos pedras e tijolos na maior distância que nossos curtos e fracos braços permitiam.

Minha sorte foi que ele logo mudou de lá e o campo de batalha acabou. Longe do que parecia que aconteceria com a chuva. A rua estava deserta. Muito estranho para uma hora daquelas. Aproveitei para andar no meio da avenida, como se tudo ali fosse meu. Tudo minha propriedade. Finalmente eu podia fazer o que quisesse: vida longa ao rei. Finquei uma placa com os dizeres “Proibido esportes de times”. Torci para que obedecessem, caso contrário seria obrigado a arremessar tijolos.

Mas não havia ninguém para desobedecer. A rua estava realmente vazia. Assustadoramente despovoada. Por um momento pensei que eu podia estar andando em uma área isolada. Que haveria ali uma corrida de fórmula 1 e, a qualquer momento um automóvel colorido e um formato patético me atropelaria a uma velocidade superior a do som. Então finquei uma placa “Proibido corridas”. Estava a salvo.

Os pingos caiam na minha face e escorriam como se minha pele fosse impermeável. Aprendi no laboratório de biologia que a pele era de fato impermeável. Mas aquilo me pareceu ridículo. A professora explicou que era porque a água não passava. Fizemos um meticuloso experimento de colocar as mãos de baixo da torneira e verificar que a água não atravessava nossa mão. Gritei do fundo da sala que minha mão estava molhada do mesmo jeito. Todos riram e ninguém me escolheu na aula seguinte, que era de educação física.

Mas o que quero dizer é que nem molhado eu estava ficando. A chuva caia, batia no meu rosto como se fosse pudim e espirrava para qualquer lado. Talvez fosse chuva ácida ou algum tipo de reação química diferente. Talvez a área estivesse de fato isolada por causa de uma chuva fortemente nociva a saúde. Parei a bicicleta e tentei me molhar. Realmente aquela chuva tinha algo de diferente. Liguei para a polícia e perguntei se estava tudo bem. Me responderam que aquela linha era muito importante para fazer trotes. Disse que não era um trote, que estava realmente preocupado. A atendente retrucou que se eu continuasse me insinuando ela mandaria me prender. Julguei a chuva mais segura e continuei meu caminho.

O tempo passava de pressa e deveria me apressar. Quanto mais avançava mais medo tinha. As ruas estavam de fato vazias. Nem pessoas nem carros. Nem carros estacionados, nem sinal de vida. Achei aquilo muito estranho mas não podia me atrasar. E não importava muito ter medo. Portanto que tivesse coragem de enfrenta-lo. E eu tinha.

Não é a toa que eu voava pelas ruas. Os sinais estavam todos verdes e não tinha como ir mais rápido. Por um momento senti uma capa de super-herói balançando nas minhas costas. Mas logo percebi que era só o capuz do meu casaco. Talvez fosse uma boa ideia ter uma capa para andar de bicicleta. O efeito do vento faria com que realmente pensassem que a capa funcionava. Claro que não pensariam que eu estava voando. Mas com certeza eu pareceria mais rápido.

Já estava muito além da metade do caminho e abandonei aquela ideia. Era completamente estúpido andar com uma capa de super-herói de bicicleta. Se algumas pessoas já achavam a bicicleta ridícula, me atirariam tijolos se eu tivesse uma capa. Lembrei da atendente no telefone e olhei para os lados para me certificar de que não estavam me seguindo. Fiquei com medo de ter pensando alto e ela ter ouvido. Conferi se realmente desligara a ligação e segui em frente.

Agora ia pelas ruas menores, paralelas a avenida. Era um simpático vilarejo de pescadores. Embora não houvesse nem mar nem rio. Talvez os peixes fossem de algum tipo de criadouro. Não sei dizer se é possível fazer plantação de peixes. Mas certa vez passei por um pasto de vacas que tinha uma placa “Plantação de churrasco”. Achei a piada cruel e sem graça, mas ri alto. Uma vez contei essa piada em um encontro. Mas ela era vegetariana e não achou graça. Então contei sobre um amigo que teve a ideia de andar de bicicleta com um capa de super herói. Ela deu muita risada e perguntou com que tipo de pessoa eu andava. Eu respondi que era um cara diferenciado e que andava sozinho, assim como nas aulas de educação física: meu time era de um só. Em seguida ela pediu a conta e foi embora. Foi um encontro formidável, como ela não falava muito tive tempo de contar bastante sobre o quintal do vizinho da esquerda e as oportunidades que tivemos de matar alguns passarinhos com pedras e enterrar um gato vivo no cimento.

Agora estava realmente perto do meu destino final. Nem sequer tinha suado em todo o caminho. Talvez o vento tivesse secado meu suor. Talvez eu tenha suado todo o suor da minha vida naquele encontro, enquanto contava sobre meus problemas em comer, nadar, dormir e falar.

Só precisava de um lugar para prender a bicicleta e pronto. Sem atrasos, sem problemas, sem suor, sem nenhum tipo de problema. Era o primeiro compromisso em anos que eu chegaria em segurança e sem atrasos.

Caminhei até a porta e pude ler a placa: “Fechado”.

Arregalei os olhos e olhei para o céu: nenhuma das pedras havia caído na minha cabeça. Levantei, tomei um banho e parti.

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