A Quarta Cinza

O céu parecia claro, mas quando abriu a janela percebeu que o dia estava um fiasco. Daqueles que a melhor companhia é a cama, muita comida por perto e algum filme sonífero. Queria poder não levantar dali. Que alguém entrasse pela porta lhe trazendo uma bandeja, uma daquelas cestas enormes de café da manhã e um penico.

O carnaval havia sido pesado demais. Não tinha mais idade para essas coisas. Quando levantou tudo girava. Tinha gosto de ressaca na boca e cheiro de ontem exalando pelos seus poros. Foi aquele momento em que se arrependeu de tudo e se perguntou porque fazia isso a si. Porque bebia, porque passava a noite na bagunça. Porque fritava seus pulmões com o cigarro. Porque não fazia esportes e namorava?

Entrou no chuveiro e viu parte da folia descer pelo ralo. O resto dela iria embora em seguida, quando visse as fotos do feriado. Comeu, tomou um suco de laranja, desses que dão vigor a vida. Sentou, respirou e começou a rolar as fotos.

Era uma pior que a outra. Não a fotografia, mas o conteúdo. Relembrou um bocado de gente que havia encontrado e não se recordava. Essa amnésia é péssima, mas é bom saber que havia se divertido. Aquela sensação de que foi ótimo, mas não se sabe o quê.

Foi então que decidiu olhar as mensagens. Foram muitas risadas. E muitas outras dúvidas. Haviam números não salvos com altos papos. Provavelmente eram amores de carnaval. Alguns se lembrava, alguns se lembrou e outros, jamais lembraria.

Agora já era hora de sair. O trabalho lhe esperava e seria um longo caminho cinza até lá. Diferente dos coloridos bloquinhos que enfrentou nos últimos dias.

Se pudesse, faria tudo de novo. A única coisa que mudaria é que teria pedido demissão na semana anterior. Assim poderia curtir aquele dia cinzento numa boa. Mas isso também não adiantaria, queria continuar a folia. O problema é que não aguentaria continuar esse ritmo maluco. E também não aguentaria passar o dia em casa curtindo a solidão melancólica e nostálgica do pós festa.
E assim, terminou o Carnaval, que, como de costume, nunca tem final.

Conta o que você achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: