Saudades de um tempo que não vivi

Se você ainda não assistiu, está perdendo. O programa 70 e tal do Canal Off é de dar onda na boca. É uma série que retrata como era a cultura do surf no Brasil na década de 70. Mas não é só isso. Não é só de surf que estamos falando. É sobre o estilo de vida da molecada daquela época. Como eles viajavam, como se divertiam, o que rolava entre uma sessão e outra. É a formação da cultura de praia brasileira. Um mergulho em um mar que ainda existe: nas cabeças feitas daquela época.

E por falar em cabeça feita, levavam isso a sério. O propósito da vida era esse: fazer a cabeça a qualquer custo. Não importava se para chegar no pico a viagem fosse em um fusca com 4 caras, pouca parafina e muito perrengue. Também não importava se era a melhor prancha ou o melhor surfista. O que importava era estar entre amigos, ondas e muita diversão.

Como o surf não era simpaticamente aceito, era preciso atravessar uma arrebentação cultural. O choque era entre os pais e a galera que queria passar o dia entre a praia e o mar. Tinha até malandro que escondia a prancha da família pra não levar esporro. Era uma época difícil pra quem queria questionar qualquer coisa, não se podia falar de nada. Afinal, de um lado estava a guerra e do outro a ditadura. Então o surf representava a distância que os jovens queriam ter de tudo aquilo. Alguns dizem que os surfistas faziam uma revolução pacífica e silenciosa, outros discordam. A questão é que quem pegava onda era visto como alienado. Era a galera que estava fora do sistema, diferente de outros esportes da época que já haviam conquistado certo respeito. No fundo, funcionava como uma válvula de escape para todos os “nãos” que a sociedade vinha dizendo. Era uma prática espiritual. Era uma forma de dizer “sim” a diversão, “sim” a própria maneira de pensar.

O surf transcendia a discussão de esporte, sociedade e correto ou incorreto. Era uma maneira de fugir do ambiente urbano e entrar em contato com a natureza. As praias eram menos urbanizadas e era uma verdadeira aventura chegar em alguns picos. Alguns deles eram uma verdadeira expedição por estradas de terra, vilarejos e praias inabitadas. Isso tudo dava uma tremenda sensação de liberdade. Livrava o surfista das discórdias do cenário político e o tirava da zona de conflito de certo e errado. Esse contato com a natureza que nos cerca também era uma forma de entrar em contato com a própria natureza humana. Aquela que deixa mais perto de uma cabeça devidamente feita. A natureza de cada um. Uma maneira de se permitir descobrir qual a própria resposta para toda a pressão que cercava a juventude da década de 70. Afinal, se conhecer é a melhor maneira de conhecer ao outro.

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O surf mostra que quem manda é o mar. E isso faz com que se conheça melhor os próprios limites e a própria consciência. É uma questão de percepção, de ver o mundo de um jeito diferente. Todo surfista sabe que a arte de deslizar é algo que marca a vida pra sempre. O que acontece dentro do mar também acontece fora. As vacas te ensinam a lidar melhor com os problemas. As ondas perfeitas e tubulares te mostram que o esforço te leva mais longe. E a verdadeira plateia da vida é formada pelos verdadeiros amigos que acompanharam toda a remada até o drop perfeito. É então que se percebe que passar o dia na praia é uma necessidade. Não é luxo nem vadiagem. É algo que o corpo pede e a mente suplica.

E o resto não importa. Não importa se você tem um cabelão, uma camiseta apertadinha e calças boca de sino. Não importa Se você surfa de mono ou quadriquilha. Não importa se você usa parafina gringa ou parafina feita à mão. Não importa se você mora na praia ou faz bate volta. Não importa de que tempo você é. A única coisa que importa é que você tenha a cabeça feita. E a única certeza é que o prazer de entrar na água, não mudou nada de 1970 para 2015 e não vai mudar enquanto o surf existir.

O filme “70 e Tal” é uma produção do Grupo Sal premiado como melhor filme internacional de Surf do Internacional Surf Film Festival Anglet. É o primeiro episódio da série “70 e Tal” do Canal Off. As fotos de época são dos site do Grupo Sal, da sua revista Saladahpágina do face da série “70 e Tal” e arquivos da maravilhosa internet.

Agradeço e parabenizo todos os envolvidos do Grupo Sal, do Canal Off e todos os surfistas de alma que contribuíram pra uma tão rica série de matar saudades aqueles que não viveram a década de 70.

Se você é desses apaixonados por surf, vale dar uma remada nessa outra página aqui.

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