Miolos

Foi então que tiraram o chão de debaixo dos seus pés. Tudo aconteceu muito rápido e não pôde compreender muito dos fatos que presenciara. Que, em um futuro próximo seriam fatos com duas versões, a sua e a deles. Mas não importava o que seria ouvido, importava o que estaria na capa dos jornais.

Com certeza não seriam notícias boas. Seriam notícias a respeito de morte, prisões, roubos e desrespeito com o meio ambiente. Mas o que presenciara não tinha nada a ver com isso. Se tratava de uma coisa mais séria, muito maior. Uma coisa que abalaria as estruturas de uma sociedade inteira. Que colocaria homens poderosos em cubículos onde não caberia mais do que metade de seus egos.

E esses homens já sabiam disso. E já tinham um plano para evitar tal tipo de situação desconfortável. Manteriam erguido o muro. Aquele que separa as pessoas comuns dos fatos de duas versões, a sua e a deles. Que deixa de lado aquilo que pode ser questionado e mantém de pé aquilo que não lhes interessa, mas que sim, lhes diz respeito. Manteriam separados o mundo deles, do mundo que todo o resto habitava.

Mas aquilo que viu não lhe despertava tanto poder quanto despertaria no resto das pessoas. Uma massa de gente que também o tivesse visto seria capaz de levar abaixo o muro. Mas estava só e pouco poderia fazer. O que importava para eles é que tinha visto o que não deveria. E o que lhe importava é que preferia não ter visto.

Preferia ter ficado do lado do muro que ninguém vê nada. Do lado em que nem sequer suspeita que existe um outro lado. Na verdade, é o lado do muro onde ninguém sabe que o muro existe. Quem enxerga o muro, já o derrubou.

Sabia que não tinha muito tempo para agir, então se apressou. Deveria recorrer aos maiores veículos de comunicação e contar com a fé de quem lhe ouviria. Afinal, teriam de acreditar em algo que nunca viram nem ouviram falar: o muro e o que acontecia depois dele. Quem eram as pessoas que controlavam tudo aquilo e como tudo é do jeito que é.

Mas o plano deles funcionou melhor. E o muro continuou firme, forte e invisível. E as próximas palavras que diria, seriam ditas em silêncio.

One Comment

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  1. Isso me fez lembrar de um trecho de uma música do Roger Waters: “there is someone in my head, but it is not me.” Quem está nas nossas cabeças?

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