No Escuro

Sonhei que cagava no escuro, em um lugar que não podia fazê-lo. Como se eu estivesse no meio de uma sala de aula, ou uma igreja ou no cinema. Importa que era proibido cagar ali.

A única coisa que eu conseguia ver era minha própria bosta. Primeiro senti um calor esquisito por debaixo das minhas roupas. Como estava frio, achei gostoso. Mas me assustei quando senti que o calor era meio estranho e grudento. Tentei passar a mão pra ver se sentia algo mas foi inútil. Foi como colocar a mão em um aquário para checar se a água está lima ou suja: nunca terás certeza.

Então levantei assustado. Ainda bem que ninguém reparou. Vi ela ali, uma bostinha sem vergonha. Pequena, marrom clara e meio amassada. Não consegui entender como eu havia cagado nas calças e a bosta estava do lado de fora, no banco onde eu sentava. A cor daquilo me irritava. Não parecia de verdade. Mas era. Percebi quando tentei pegar com a mão e ela escorregou que nem um peixe. A sorte é que era uma bosta de sonho, então ela não sujou minha mão nem era fedida. Olhei em volta assustado, mas ninguém havia percebido. Estava em choque, se descobrissem seria o fim da dignidade, da vida, de tudo.

Mas eu tive uma ideia boa. Me lembrei de quando passeava com a minha cachorra e pegava suas obras fétidas de arte orgânica com um saquinho de supermercado. Tirei uma das meias e fiz igual. Por sorte estava sem sapatos então foi rápido e ninguém percebeu. Mas ainda havia sujeira ali, então tirei a outra meia e passei como um pano para limpar. Nada que uma cusparada não resolva melhor que um Veja.

Pronto, problema resolvido. Agora era só se livrar das meias sujas e procurar algum tipo de calçado que não levantasse suspeitas. A melhor maneira de sumir com as meias era as enrolando em algo para levar embora dali. Como a camiseta estava com uma ponta suja de merda, aproveitei para enrolar as meias nela. Agora seria como se eu tivesse um saco de lixo para jogar fora: algo completamente normal. Ninguém suspeitaria de nada.

Foi quando me lembrei que minha calça também devia estar suja. Abaixei ela até os joelhos e olhei por cima: sim estava suja. Mas a merda já tinha secado então não estava tão nojento e melecado assim. Quem já cagou na calça sabe que a pior parte é tirar a calça: a merda escorre por todos os cantos, até sujar as meias. O bom é que já estava sem meias. Então tirei a calça e enrolei junto com a camiseta. Ficou um bolo de roupa grande demais pra sair despercebido por ai.

Olhei em volta e continuava tudo escuro. Minha premissa era que se eu deixasse tudo aquilo ali e fosse embora, ninguém notaria que em algum momento eu estivera por lá. Foi o que fiz. Como em uma partida de futebol foi feita a substituição, sem o jogo parar.

No que eu levantei, sai rapidamente. Deixei pra trás o bolo de roupas com merda e uma verdade que seria negada até o fim.

Me vi nu, andando pelo shopping. Já era tarde então os corredores estavam relativamente vazios. A sorte é que na saída do cinema havia uma salinha da limpeza. Entrei e procurei alguma coisa. Encontrei uma bota que calcei em uma velocidade recorde e sai andando sem olhar para trás. Depois de um roubo nunca olhe para trás. Ande por ai como se nada estivesse acontecendo e deixe o local do crime.

Finalmente podia ir embora em paz. Quando sai do shopping vi meu reflexo na vitrine e eu estava lá: nu, de botas.

Inspiração: Livro “Nu de Botas” de Antonio Prata

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