Fragrância do Fim de Vida

Foi quando percebeu que o tempo havia passado. Ali, naquela pequena venda. Onde de pouco havia um tudo, percebeu que o que queria não existia mais. Não se tratava de um simples produto que não constava nos estoques e na prateleira. Mas sim do fim de algo.

Era o fim dos tempos. Não de todos os tempos, mas do seu tempo. Era o final de uma época. O começo do final de sua história. Sabia que tinha um bocado de tempo em cada uma de suas pernas, mas não havia se tocado de que a revisão de quilometragem passara há anos atrás.

E embora tivesse realizado a manutenção orientada pelos especialistas, o tempo passara do mesmo jeito. Não havia como voltar atrás. Vieram alguns pensamentos de possíveis alternativas. Se tivesse comido menos fritura…se tivesse praticado mais atividades físicas…se tivesse tido ainda mais atenção à sua saúde. Nada disso faria o tempo voltar. Nada disso faria o relógio andar para trás. Muito menos as alternativas que vieram em seguida: se tivesse aproveitado mais…se tivesse comido mais fritura… se tivesse trabalhado menos.

Mas não se tratava de arrependimento. Se tratava simplesmente da consciência da passagem do tempo. De quando em vez, um ou outro de mais idade passa por uma dessas tomadas de consciência.

A sua viera ali, na venda onde sempre comprava seu perfume. A informação que lhe foi dada era de que saíra de linha. Ou seja, nunca mais haveria um perfume daquele na prateleira novamente. Fim, final, acabou, nunca mais, jamais, de novo não…como preferir chamar.

Tirar um perfume de linha é como tirar a alegria de uma criança. Era isso o que pensava. A questão é que um odor é simplesmente insubstituível. Existem chocolates com sabores parecidos, vinhos com gostos semelhantes…mas os perfumes eram únicos. E não ter mais acesso ao cheiro de um perfume era como uma criança que deixa de ser criança sem ter crescido. Parecia muito confuso. Talvez estivesse dramatizando demais o fato de não poder usar mais o perfume que usou durante toda a vida. Talvez tal fato não fosse tão chocante pelo “não usar mais”, mas sim pela tal tomada de consciência.

A tomada de consciência que vinha com muitas questões e muitas afirmações. Não sabia o que seria de seus filhos e netos. Nem dos seus poucos e restantes conhecidos também de muita idade. Tampouco podia dizer onde estavam os outros conhecidos, que já haviam ido. Sabia que faltava pouco. Sabia que deveria aproveitar o pouco que faltava. Sabia que sentiriam sua falta. Não sabia onde, nem quando. Muito menos como e por quê. Sabia que o fim lhe esperava em qualquer um dos dias do calendário que estava sobre a geladeira. Sabia também que o seu velho relógio cuco não reservaria um horário específico para tal.

Seria em qualquer lugar, a qualquer momento, de qualquer jeito. Talvez sem motivos aparentes, só o tempo. Seria como qualquer outro ser humano de idade. Seria algo tão claro quanto o nascimento de uma criança. Seria uma pessoa a menos. Mas o que mais angustiava era que não haveria aviso prévio nem chance de papo.

Caíra em um mar de medos, angústias e devaneios. Depois de uma vida inteira a morte lhe assombrava.

Saiu da loja e prosseguiu andando com calma pelo mesmo meio fio onde sempre andara. Sentou na praça em frente a igreja, rezou baixo, sem compromissos. Só por rezar. Passados alguns instantes viu uma mãe chegando a praça com uma bela criança de 2 ou 3 anos. Cheia de vida. Cheia de alegria. Podia sentir o cheiro de uma vida inteira de onde estava observando.

Aquilo lhe deu uma luz. Mostrou-lhe uma alternativa. Uma realidade que era o ciclo da vida. Assim como haveria a morte, haveria a vida. Haveria novas pessoas para preencher os espaços dos que já haviam ido. Haveria novos sorrisos e novas gargalhadas, como da pequenina pessoa que corria entre os bancos e árvores da praça. Deveria ser renovado o que já não pode mais dar aos outros a felicidade que lhe foi dada. Era a lei de troca da vida: viverás enquanto tiveres alegria para distribuir.

E foi isso o que fez, realizou um saque de alegria de sua poupança. Resolveu distribuir pelo bairro. Aproveitou o dinheiro que havia levado para comprar o mesmo-perfume-de-sempre e comprou uma nova fragrância.

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