Oco

Loco. Insano. Infame. Estava lá. Ele me olhava como se fosse a primeira vez na vida que via outro ser humano. Ainda não tinha certeza se era um ser humano real. Talvez pudesse ser fruto de alguma máquina do tempo quebrada ou uma fuga perspicaz de algum laboratório clandestino de experiências genéticas. Não conseguia enxergar bem os traços do seu rosto. Por um instante pensei que fosse uma mulher. Mas logo vi que não. Era uma ideia absurda.

Então me perguntei quem era. Quem de fato era. Qual seria sua história. Quem eram seus pais. Onde havia nascido. A fala de abertura de um programa de televisão me veio a mente: Quem é ele? De onde ele vem? O que ele come? Como sobrevive? O que o faz feliz? Não perca o programa de hoje!

E percebi que era muita injustiça pensar desse jeito. Olhar para aquele ser ali, me olhando, e desejar um pacote-personal-histórico-fechadoelacrado. Quem tinha um desses? Quem poderia dizer quem era? Quem poderia se mostrar e mostrar sua história em apenas um olhar ou que seja em cinco minutos de conversa. Era querer de mais descobrir assim, tão fácil, quem era.

Precisaria de mais tempo. Precisaria ver mais. Conviver mais. Conversar mais. Mas, não sabia se queria. Talvez não quisesse ter que passar por um longo processo pra descobrir uma porção de coisas. Até porque, não seria possível no final desse processo fazer um relatório indicativo anexado ao perfil sócio-econômico-psico-identitário-cultural. Era um costume rotineiro das empresas de pesquisa e dos sócio-filo-antropólogos traçar perfis geometricamente calculados a respeito das rotulações criadas “a priori”. Em seguida, “a posteriori” se queixariam de uma sociedade rígida, sem liberdade de expressão.

Deixaria que ele se expressasse por conta própria. Não era problema meu quem era ou o que faria. Eu estava ali, na minha, tranquilão. Se ia optar por adquirir um desses rótulos pré-fabricados, isso não era da minha conta. Tinha mais é que cuidar da própria vida. Não sei porque aquilo havia mexido tanto essa questão identitária do “quem sou eu”. Eu não tinha realmente nada a ver com aquilo, em absoluto. Me senti até mal de ter criado uma cobrança tão grande em relação a um ser que jamais havia visto antes, nem conhecia. Pode ser que ele já soubesse todas as respostas das questões que levantei. E eu aqui, cobrando uma resolução da parte dele.

Mas já dava a hora e era melhor eu terminar de fazer a barba e ir me trocar. Precisava chegar no horário. O que pensariam de mim do contrário?

Fechei a porta do banheiro na cara dele e sai. Tive a impressão que ele ficou ali, do espelho, olhando pra mim, me perguntando quem eu era.

One Comment

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  1. Acho que ele já sabia, só não quis te contar! hashAHS
    Gostei rapaiz!

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