Vestígios

Não falei. Não falei e acho que não vou falar. Queria muito falar. Dizer que me arrependo de não estar eu com você. Dizer o que senti, o que fiz e o que vi. Te contar os motivos de eu ter me afastado e partido. De ter nos obrigado a se separar. Foi uma separação de uma união que não existia. Pelo menos, não oficialmente. Era uma união orgânica, da vida. Era uma união que ia acontecer.

Mas não vou dizer. Se te dissesse podia te afastar mais ainda de mim agora. Te assustar. Te mostrar que sou completamente louco e que não vale a pena nem conversar. E isso é o que me faz pensar em você. Nossas conversas, nosso jeito de se fazer bem. Mesmo tão distante. Mesmo tão longe.

Fecho nossa conversa e vou dormir. Lembro do beijo que não te dei. E percebo que, de fato, o tempo passou. E ele passa para nunca mais voltar. É triste pensar. Mais difícil, aceitar. Mas é como quando vimos aquele filme. Era incrível, era intenso, era sensacional. Mas de repente, acabou. Não teve final. E toda boa história tem começo, meio e fim. E a vida é uma boa história. Acho que foi por isso que acabou. Por isso que nos separamos e traçamos rotas diferentes das nossas vidas. A nossa história é boa.

Foi como se eu tivesse viajado por todo esse tempo. E quando voltei, percebi que você já tinha ido embora. Que você já tinha crescido e trilhado seu próprio caminho. Queria eu que você estivesse me esperando. E que quando eu chegasse, você desse risada e dissesse que sabia que eu me arrependeria mas que sim, estava ali, pronta pra me abraçar. Como em um sonho de criança. Mas nós crescemos. Agora estamos invertendo os papéis e não vamos mais ser cuidados e poupados pelos nossos pais. Não teremos nossos desejos satisfeitos por alguém. E isso é bom. Isso mostra que a nossa história continua sendo boa. É boa porque é real. É uma história de gente de verdade. Não é uma história de faz de conta.

E pra falar a verdade, não sei se é de você que estou falando. Talvez seja outro alguém. Uma mulher que na verdade não existe. Que nunca existiu. Que apenas da minha imaginação fruiu. Talvez você não seja quem eu penso. Talvez não seja a namorada que eu imagino. Talvez não seja a mãe que eu rabisco numa cena futura desse filme. Mas pra nada disso eu ligo. Não quero descobrir isso sozinho. Quero descobrir com você.

Talvez agora você que esteja pensando quem sou eu. Afinal, como aquele garoto se tornou isso que te digo? Como aquela boca que você não beijou pode falar, cheia desse jeito, que tem tanta certeza. É que não entendo o que você via em mim. Naquele eu. Naquele eu perdido entre nada e coisa nenhuma. Um moleque travesso, que vivia por ai. Que te ligava na madrugada, pra te acordar e te fazer rir. Que ficava feliz de receber uma mensagem sua, mas não respondia. Que queria te ver mais não conseguia. Não conseguia porque? Não sei dizer. Não sou mais aquele. Não respondo por atos que não cometi. É como olhar pra trás e me ver partir. Sozinho, sem ti.

E ao olhar pra frente me vejo em um espelho. Vejo minha barba, vejo meu cabelo. Vejo que cresci. Que mudei. E que nesse tempo todo, eu existi. Eu fui e venci. E agora estou aqui, percebendo que perdi. Que te perdi. E não posso nem vou fazer disso uma novela, uma derrota. Vou sair por cima.

Não. Não vou deixar tudo pra trás e seguir em frente. Vou apenas acreditar que toda história boa tem começo, meio e fim. E que a nossa verdadeira história, ainda nem começou.

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