Passador

Se sentia como uma poeira puxada pelo aspirador. Era como se algo o puxasse para trás e fosse muito difícil ir em frente. Talvez fosse muito pó, muita sujeira, e então tenham ligado um grande aspirador para fazer uma faxina em sua vida. Talvez o aspirador fosse novinho em folha, e, por isso, puxava tão forte. Ou então a faxineira é que era muito prendada e fazia aquelas limpezas pesadas, que não sobra nem fiapo de roupa de lã no tapete.

Mas o que menos lhe preocupava é se a faxineira era prendada ou não. Queria entender porque era tão difícil caminhar. Porque era tão difícil seguir em frente, andar por ai nas ruas da cidade. Todos pareciam andar com calma, de maneira suave. Como se fosse natural sair andando por ai, esperar o ônibus chegar numa boa. Isso era loucura para ele. Se sentia atrasado e lento diante de tantos andarilhos urbanos. Por causa dessa sensação de lentidão e impedimento andava a passos largos e rápidos, estava mais rápido que todos. Mas mesmo assim, se sentia fraco. Sentia que era uma caminhada injusta. Como se estivesse fazendo mil vezes mais esforço. Continuava do mesmo jeito, pior do que aquilo só seria se estivesse parado.

Mas se estivesse parado teria que tomar alguma atitude. É assim que funciona a vida, a gente só muda quando as coisas ficam ruim o suficiente. Ninguém pede divórcio de um casamento mais ou menos. Mas se estiver ruim pra caramba pode ter certeza que sim. Do mesmo jeito que aqueles reclamões da política só vão tirar a bunda do sofá e fazer alguma coisa para mudar de fato a situação quando ela estiver crítica. Por isso, sabia que talvez até fosse interessante parar. Talvez tivesse alguma ideia para mudar. Não aguentava mais ser puxado na direção contrária.

Mas a tortura continuaria até que chegasse lá. Naquela viela. A mesma que havia estado há algumas horas atrás. Sim, era desse jeito que acontecia, de hora em hora. Queria velocidade, queria ver as coisas passando pela sua vida como se não precisasse fazer quase nenhum esforço. Depois que você começa e se acostuma, pouco transpira para se movimentar. O corpo acostuma, o corpo pede mais. Impossível ficar parado, ser puxado para trás pelo grande aspirador da vida.

Quando estava perto do poste pegou a chave no bolso. Soltou a corrente assim que destrancou o cadeado, quase simultaneamente. E, antes mesmo de colocar o capacete, já estava pedalando. A bicicleta parecia fazer parte do seu corpo. Paz.

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