Viajante

E como quem nunca havia visto uma peça daquelas o jovem viajante sentou-se e deu um profundo suspiro. Já concertara milhares de aparelhos como aquele antes, mas dessa vez, parecia que não conseguiria cumprir suas funções com eficiência. O GPS parara de funcionar a mais de 30 km atrás, mas achou que conseguiria se encontrar.

O mapa mostraria que o caminho certo era em direção ao sul, mas estava de ponta cabeça. Sentado em um longo pedaço de madeira o experiente aventureiro deixou o GPS quebrado de lado nos seus pensamentos e começou a refletir de onde viera o tal banco que estava sentado. Como no meio daquela pequena estrada havia um pedaço tão grande de uma árvore Cambará, originária da Amazônia. Estava no meio do sertão e até onde seus olhos podiam ver não havia nem uma folha. A madeira aparentava estar por ali a bastante tempo, não podia chutar quantos anos…

Mas era claro que aquela árvore estava viva quando faleceu por ali. Ou será que havia sido assassinada? A cena do crime era muito suspeita: um esqueleto ósseo de uma Cambara de idade média numa estrada que não sabia o nome e nem para onde ia. Talvez não se lembrasse de onde vinha também. O que importa é que a arcada dentária da velha árvore não podia ser mais identificada por conta da ação do tempo e que a cena do crime já devia estar contaminada por viajantes que passaram por ali. Não que muitos passassem, mas, alguns pelo menos devem ter passado.

Com certeza era um caso de homicídio. A posição do tronco e as raízes aparentes são evidencias de um homicídio violento. Provavelmente um homem de grande porte físico. Talvez dois, pode ser que o assassino tivesse um comparsa para ajudar a vigiar o movimento e ajudar a esconder provas. Não havia nem sinal das folhas. Talvez fosse a marca de um assassino em série: mas o que significava isso? Arrancar todas as folhas da árvore podia ser um sinal de que houve tortura antes do homicídio. Inclusive, essa podia ser a estratégia usada pelo experiente serial: arrancar todas as folhas da árvore, uma por uma, até que não fosse mais capaz de sobreviver.

Mas não havia sinais de luta. Talvez ela estivesse amarrada…mas também não haviam sinais de corda. Talvez as folhas tivessem sido arrancadas depois de morta. Mas isso só o legista poderia dizer. E não havia um ali, apenas um viajante, um GPS quebrado e um mapa virado do avesso.

Olhou em volta e não enxergou nenhum sinal de pegadas no chão ou rastejamento. Com certeza tudo acontecerá ali, onde estava. Podia sentir a presença do assassino em série e conseguia até mesmo visualizar os últimos pensamentos da vítima: devia ter pensado nas pessoas que amava, talvez os filhos ou parentes próximos, que distantes estavam. Não devia ter marido, senão não estaria ali. Com certeza estaria protegida atrás de braços rígidos e grossos.

Não havia sinais de violência sexual. Mas também não estava com documentos ou carteira. Talvez fosse um caso de sequestro relâmpago. O bandido trouxera a vítima para lá depois de ter sacado todas as suas riquezas em algum banco próximo. Mas e as folhas? Porque o culpado teria arrancado todas as folhas se só quisesse roubar a pobre coitada? Sim, o elemento roubou o que tinha para parecer um caso de sequestro relâmpago. Provavelmente as autoridades responsáveis pelo caso chegaram a conclusão de que se tratava de um sequestro relâmpago e deram o caso por encerrado.

Mas não, não havia acontecido isso. Não era um caso de latrocínio, muito menos de estupro seguido de homicídio cruel e menos ainda uma vítima de um insano assassino em série. Sem sombra de dúvida o responsável por aquela cena que presenciava era o próprio marido da vítima. Por isso não estava lá e por isso deixou a companheira para trás.

O viajante conseguiu elaborar a real história a partir das poucas pistas e elementos presentes no que restou da cena do crime: o marido chama esposa para uma viagem romântica. Compra um pacote de viagem que propõe um belo passeio pelo interior do nordeste, conhecendo comidas típicas de região e a história dos lugares onde passam. E no decorrer da viagem, em um momento em que estão só os dois turistas naquelas estrada onde pisava, o marido convence a mulher a se deitar para ver o por do Sol e lhe oferece um pouco de água, que trouxera para a trilha. Porém, essa não era uma amostra de água incolor e inodora, se tratava de uma solução com veneno e sedativo suficiente para que dormisse por toda a eternidade. Depois de desacordada, o assassino arrancara todas as suas folhas e sumira com documentos e carteira, forjando uma cena de sequestro relâmpago seguido de homicídio.

Por isso nenhuma marca de luta, nenhuma marca de resistência. Se tratava de uma morte de amor. Uma morte intensa, certeira e sem vestígios.

Solucionara o crime, estava aliviado. Mas se deu conta de que o próximo a ser encontrado morto por um viajante perdido era ele mesmo. Estava sem rumo, a noite começava a cantar a sua presença e o GPS ainda não havia sido concertado. Pensou que havia valido a pena, que se não tivesse perdido tanto tempo solucionando aquele crime não conseguiria dormir direito pelo resto dos tempos. Embora corresse risco de vida, estava aliviado. Então voltou a atenção a peça quebrada do GPS.

Precisava soldar alguns fios. Ou isolar alguns outros. Mas não tinha solda e muito menos fita isolante. Olhou em volta e não havia nada nem ninguém. Provavelmente também não havia uma loja de materiais elétricos ou uma autorizada ali por perto. Tentou encontrar na natureza algo que pudesse usar para arrumar o aparelho de vez. Não avistou nada a não ser alguns cactos e o defunto da pobre Cambara envenenada. Madeira. Madeira é isolante elétrico. Podia usar os restos mortais encontrados. Nunca fizera aquilo antes, nunca havia mexido em um cadáver, muito menos lhe arrancado pedaços. Mas tinha um canivete ali e podia tirar filetes de madeira que seriam rígidos o suficiente para manter os fios na posição certa e evitar um curto circuito.

Quando se aproximou podia sentir o cheiro da madeira sem vida e envelhecida. Por um momento gostou do odor e ao fechar os olhos podia se imaginar na oficina de um luthier, em frente a peças perfeitas de madeira de primeira qualidade. Mas logo se lembrou que o que sentia era o cheiro de um assassinato injusto e cruel. Então seguiu em frente e procurou se enganar com a desculpa que estaria dando um futuro melhor àquele cadáver. Que ele serviria para salvar um vida.

Com as lascas de madeira na mão, deu uma última olhada para a árvore caída e voltou-se para o GPS que estaria funcionando em alguns minutos. Se sentiu culpado por saber que deixaria ela ali para sempre. Solitária e incompreendida. Mas sabia que se ficasse, de nada adiantaria e ai, seriam dois corpos ao invés de um só.

Os sons digitais do aparelho soaram alto e em descompasso com o cenário a sua volta. O sorriso do sucesso logo foi tomado pelo por do sol e a cena doentiamente romântica a sua volta. Devia ter sido naquela hora que o marido infiel oferecera alguns goles de água a esposa.

Mas a vida falou mais alto e o viajante se pôs a caminhar. Sabia que se escurecesse sua lanterna não daria conta da trilha e teria que acampar. Mas não tinha mantimentos para tanto tempo. Deixou para trás o mapa de ponta cabeça, um enorme tronco de Cambara e a verdade de uma história de amor.

Talvez um próximo viajante pudesse fazer alguma coisa por aquela mulher.

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