Osso

Respirei fundo e senti o ar que vinha da janela no meu rosto. Ele entrou dentro de mim e eu soltei, mais rápido do que inspirei e senti o vazio que ele deixou para trás. Percebi como é esquisito respirar. Encher seu corpo e esvaziá-lo em apenas alguns segundos.

Movimentei a cabeça e os ombros enquanto cerrava os olhos e respirava mais profundamente. Parei quando fiquei tonto. Depois segui em frente novamente. Mas então me joguei no chão a passei a sentir meu corpo através do mármore gelado sob o qual eu me mexia como uma minhoca fora da terra. Eu ia até onde começava o mármore. O mármore ia até onde começava eu. Então o mármore e eu erámos definidos um pelo outro. Eu começo onde ele termina, ele começa onde eu termino. Nós começamos onde nós terminamos.

Mas o ar que entrava em mim não era assim. Ele fazia parte de mim e depois ia embora. Como se eu fosse diluído aos poucos nesse espaço enorme que chamamos de mundo. A cada respiração, um tanto de ar passava a ser eu. E então eu me diluía e virava mundo. Depois o mundo virava eu. Eu viro mundo quando o mundo me vira.

Fui mais longe. E coloquei em xeque os limites entre eu e eu mesmo. Onde começa meu sangue e terminam meus músculos? Onde um neurônio deixa de ser o outro? Percebi que deveria começar arrancando minha pele. Aceitar que sou o mundo e o mundo me é. Que o que me separa de toda a energia vital aqui de fora é essa roupinha orgânica esquisita. Na verdade, ela não me separa do mundo. Nem de você. Eu e você estamos no mesmo lugar, nossas peles são porosas e minha exala e entra em você pelos seus milhões de poros. Por isso sinto seu cheiro, seu tesão e você sente o meu.

Mas eu queria realmente estar no mundo, ser o mundo. Então peguei a gilete e arranquei fora o que me impedia de me definir o mundo. Agora eu era mais real, mais orgânico. Podia ver meus músculos, ver meu sangue circulando, as veias pulsando mais de perto. Frágil. Eu era frágil e belo. Via a vida no espelho. Não me via mais. Via uma vida em meio a um mundo de vidas. Estava mais perto de me fundir com o tudo, com o mundo, ser a vida por ela mesma.

Mas para chegar lá, eu precisava me transformar. Eu precisava deixar de ser eu e passar a ser outra coisa. Então deveria me desfigurar, me tornar irreconhecível. Tirei o que sobrou do nariz, da boca e acabei com meu rosto. Me lembrei de como meu corpo também me definia. Meus músculos, meus movimentos. Meu jeito de andar, minha postura. Tudo ali era eu. Então cortei fora alguns músculos e tendões que me deixavam estaticamente eu. Perdi minha postura, perdi minha simetria. Era algo diferente agora. Mas ainda era eu. Ainda era lembrado como quem eu era. Precisava arrancar tudo que pudesse.

Então cortei todos os músculos que não me seriam úteis. Tudo que havia no meio deles arranquei também. Estilhacei meus tecidos e gorduras que faziam tudo ficar ali, preso, imutável. Me livrei. Me senti livre. Me senti melhor. Mas ainda não me sentia bem, não me sentia parte do mundo. Não me sentia o mundo.

Foi difícil, mas tinha que deixar de ver. Tinha que deixar para trás as linhas visuais que separavam as coisas e apenas ver o mundo a partir do meu eu interior, da minha energia vital. Arranquei um olho de cada vez, sem muito cuidado. Não queria voltar atrás. Pude sentir tudo o que sobrou do meu corpo apenas pela minha percepção natural que a vida me deu. Meus órgãos trabalhavam e se mexiam como águas-vivas. Pulsavam para lá e para cá e então pude sentir o ritmo de tudo. Entender o sistema digestivo, para onde ia o que. Funcionamos como um filtro. As coisas entram, são transformadas e saem. E eu queria ser tudo nessa vida, mas não um filtro. Não algo que seleciona apenas o que quer. Queria ser o tudo. Comecei por qualquer coisa que pude pegar com as mãos. Puxei e vi que o resto vinha vindo junto. Então saiu tudo de uma vez só. Nisso eu senti meus pulmões enchendo e esvaziando e lembrei onde tudo começou. Respirei profundamente de maneira que confirmei como estava mais perto da vida lá fora. Sem todos aqueles tecidos, músculos e proteções, meus pulmões trabalhavam bem melhor. Mas não trabalhariam por muito tempo. Eu deveria dar fim ao seu inútil esforço de me mostrar que ainda havia uma separação. Tirei um de cada vez. Primeiro o direito e então o esquerdo. Agora eu era só meu cérebro pensante e meu coração. Já havia tirado meus dentes, meus músculos, minhas veias, meus rins, meus órgãos, minha pele, meu cabelo, fio por fio. Pedaço por pedaço eu me desfigurava para me figurar como vida.

Mas na hora do coração eu parei. Parei e refleti. E vi meus amores indo embora. Eu sem o outro. Eu sem ninguém. Tudo que vi, vivi e senti ia por terra. Não amaria mais. Amar é reconhecer o outro. É compreender e conviver. É cuidar e ser cuidado. Amar é se enxergar no mundo. E era isso que eu não queria. Queria me desprender disso, queria ser o mundo. Apertei com força e puxei.

Vi a Lua. Vi as estrelas. Me vi no espaço. Me vi distante e sozinho em um lugar escuro. O Universo. Me vi no Universo. Me vi espalhado na escuridão, por todos os cantos. Tudo ali era eu. E foi quando olhei para baixo e vi a Terra. Ela ainda existia. Eu ainda estava lá. Eu sabia. Meu cérebro sabia. Havia razão naquilo tudo. E os culpados disso eram meus neurônios, cúmplices das minhas sinapses. Foi como comer gelatina. De colher em colher o pote fica vazio. Raspei meu crânio e tive certeza de que não havia mais nada ali dentro.

Me senti perto do meu objetivo. Me senti perto da vida. Eram só sensações, sentimentos e percepções. Me senti uma pedra, um galho, um cano e um gato. Me senti flor, árvore e montanha. Me vi na pele de uma lebre, um leão e um rato. Eu era vida pura, vida circulante. Nunca parada. Eu era tudo e todos. Era o complementar e o suplementar. O claro e o escuro. Era uma foto e o seu negativo, na mesma imagem. Sim, eu era o Mundo.

Eu era o mármore sob meus ossos. E então tudo acabou. Quando percebi o mármore, tudo se desfez. Tudo se transformou em tragédia. Em perdição. Tudo se transformou em eu. Eu ainda existia, estava lá. Só que incapaz. Eu era meus ossos, que seguiriam para sempre. Sem músculos e movimentos, não podia mais me desmontar. Não podia mais deixar de existir, de ser o todo. Não estava mais longe da diferença entre o eu e o outro. Para sempre estaria ali, em cima daquele mármore. Para sempre me lembraria de mim, me reconheceria. Para sempre saberiam quem eu sou. Para sempre seria eu.

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