Desencaminhado

Qualquer caminho que fizesse duas vezes, não fazia igual. Mais ou menos como se nunca fizesse o mesmo caminho. Era comum, inclusive, alongar algumas quadras o trajeto para que passasse por lugares diferentes. O problema eram os destinos diários que exigiam muita dedicação para um caminho diferente. Quando o caminho começa igual deve que terminar diferente e vice-versa. As opções de ruas devem ser cruzadas e embaralhadas, assim, novos e originais caminhos são obtidos com sucesso.

Todos os dias saia de casa pensando que caminho faria. Dava voltas pelo bairro, ia de metro, ônibus, as vezes a pé. Se fosse de carro também não valia passar toda vez pelo mesmo trajeto. Era assim, os caminhos não podiam ser repetidos e ponto. Queria ver o novo todos os dias, queria novidade, queria passar por lugares que nunca passou…não tinha a ver com segurança ou uma farmácia noutro caminho. Tinha a ver com uma alma faminta por aquele sentimento inexplicável do novo, da primeira vez que.

E era assim há muito tempo. Talvez por sorte, talvez por destino, sempre que os caminhos estavam para acabar mudava de emprego, de casa, de dentista, de academia…e como os caminhos para outras cidades são quase sempre os mesmos, decidiu não ter mais casas de praia. Não podia repetir os caminhos. A graça era sentir que nunca havia estado ali.
Sua concentração era tanta que as vezes nem sabia mais por onde andava. Via os mapas como desenhos. Ruas, ruas ruas e ruas, estações, pontos de ônibus, estradas, avenidas e mais ruas. Eram um bocado de linhas monocromáticas com alguma indicação de túnel, pontes e viadutos somadas aos pontos também monocromáticos de estações, passarelas e elevados. Os parques e praças que podiam ser cruzados eram delimitados por linhas e cores diferentes. Era uma sinalização clara porém indiferente e impessoal, não sabia que bairro estava e muito menos o que havia ali, apenas estava concentrado nas linhas que não podia se repetir. Não importava quem morava por ali ou por aqui, muito menos o que havia de bom para fazer nas praças e parques que atravessava.

Mas como uma tartaruga em uma quina de parede, os movimentos estavam estáticos e seus pensamentos travados. Não sabia se virava a direita ou a esquerda. Não queria repetir os caminhos dos outros dias. Mas parecia que as opções tinham acabado. Todas as possibilidades já haviam sido usadas. Todas as combinações haviam sido feitas. Já passara o tempo de mudar de emprego. E se deparou com isso: uma repetição de caminho. Seja para seguir em frente seja para voltar. Não podia nem regredir e nem prosseguir. As suas leis eram rígidas e não podia quebra-las. Porém, não sabia o que faria. Sempre sabia para onde ir, nunca falhara, como pudera travar assim, tão de repente?
Queria o novo, queria um caminho inusitado, que nunca fizera, um caminho diferente, que lhe fizesse sentir a vida penetrando pelos pés e tomando conta do corpo. Mas o estado era de transe paralisadora aguda: estava imóvel. E foi quando levantou a cabeça para olhar em volta que caminho podia seguir. Procurou alguma praça ao redor que não estivesse oficialmente no mapa, ou um atalho por uma viela. E não havia nada daquilo por ali. Era apenas uma rua que cruzava com outra rua: na sua mente, duas linhas. Mas, por acaso, viu que havia uma padaria, apenas alguns passos a frente. Iria até ali, daria um tempo enquanto pensava. Talvez aproveitasse para tomar um café enquanto decidia o caminho a seguir. Enquanto esperava o café esfriar, observava a rua, viu uma menininha com bem menos de uma década por perna pirilimpimpando saltitante com um sorvete na mão, sua felicidade era do tamanho do mundo. Ficou contente pela garota e em seguida não pode segurar uma risada do bem. A menina deixara cair a bola de sorvete de sua casquinha no chão enquanto olhava as horas do relógio. Com certeza aquilo havia sido o trauma do dia para ela, mas quem observava achava graça em como o céu e o inferna estavam tão próximos. Reparou em volta que haviam mais pessoas além dele que presenciaram a cena, se sentiu bem de ter compartilhado a risada com outros.

E entre o sorvete da menina e a conta do café, percebeu que na casa em frente a padaria funcionava uma barbearia muito elegante, como a que seu pai frequentava na sua infância. Pode se lembrar de ir encontra-lo com a sua mãe. Ele sempre saia de lá cheiroso e bonito. Mas nunca havia entrado na barbearia. Tinha pouca idade e lhe diziam que quando crescesse poderia entrar, por hora devia esperar com a mãe em casa. Quando recebeu o troco, decidiu dar uma espiada na barbearia, só para ver como era. Acabou entrando e conversando um pouco com um dos donos. Conversa que rendeu algumas boas gargalhadas. Saiu da barbearia sorridente, na sua memória passava o filme da caminhada junto com a mãe até o encontro do pai. Tudo era tão grande, tão diferente e tão bonito…era apenas uma criança e imaginou como não deveria entender nada do que passava. Eram apenas coisas divertidas que estavam pelas ruas.

Quando se deu conta estava caminhando. Sem perceber, saiu da barbearia e continuou o caminho sem pensar. Estava simplesmente andando, não sabia onde estava. Apressou o passo em direção ao próximo cruzamento, que lhe revelaria que linhas estavam cruzando ali, a sua localização exata. Enquanto não conseguia avistar a placa, tentou digerir os últimos momentos. Lembrou da menina, do sorvete e das risadas na barbearia elegante. Se flagrou sorrindo. Nesse momento percebeu que não importavam as linhas, mas sim o que acontecia nelas. Vislumbrou como seria bom tomar café na padaria e passar na barbearia todo dia. E, sem más intenções, queria ver uma criança diferente por dia derrubar o sorvete ali mesmo. Percebeu que todas as combinações de caminho que fazia só o afastavam do novo, do diferente do sentimento que sentia quando caminhava com sua mãe até o encontro na porta da barbearia. Percebeu que estaria mais próximo do que lhe é distante se prestasse mais atenção nas cores, nas pessoas, no que acontecia e no que havia pelos caminhos.

A placa já havia passado, mas nem se deu ao trabalho de ler. Resolveu perguntar para alguém qual o caminho para o centro. Não queria ter que pensar nisso.

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