Vivo

Me afogo. Sei que me afogo. Mas não sei onde estou. Não sei como fui parar ali, debaixo de tanta água. Água que me empurra pra baixo, pra nunca mais subir. Olho em volta, a procura de uma salvação. Uma sereia, um anjo ou uma faca com a qual eu possa cortar os punhos das gotas de água.

Prezo pela minha vida, mas se for para acabar que acabe de uma vez. Não quero me ver morrer. Quero apenas morrer. E não saber que morri. Me ver morrendo seria o fim para mim.

Por isso luto. Me chacoalho e tento gritar bolhas de água que me contam que não podem chegar ao topo e, como um sinal de fumaça, pedir ajuda. Sou eu que tenho que me livrar de toda aquela água e ir embora dali tão rápido quanto possível. Caso contrário, são elas que vão entrar em mim e encher meus pulmões de desespero. Tinha que preservá-los de toda aquela loucura. Eles só precisavam respirar. Minha função era dar toda a infraestrutura necessária para que o trabalho dos pulmões possa ser feito de maneira apropriada.

Mas eu não conseguia. Me sentia cada vez mais no fundo. Cada vez mais distante. A luz de um Sol, que eu não conseguia mais ver, batia na minha pele em slow motion e eu podia sentir a água ficar cada vez mais gelada. Como se eu estivesse sendo esquecido por uma grande e fervorosa multidão. Como se eu fosse do fogo a pó, sem nem dar chance para uma tímida faísca. Meus músculos pareciam não mais responder como antes. Me via imóvel, descendo, me afogando. Ao contrário das bolhas de ar, que subiam e brilhavam por onde passavam os raios de luz. Elas iam embora. Subiam. Se mandavam sem mais nem menos. Como se eu nem estivesse ali, precisando delas.

Tentei tirar qualquer coisa que pudesse ter peso em mim. Roupas, pesos amarrados aos pés, um piano ou um bloco de concreto. Mas não havia nada. Naquele momento percebi que estava com o corpo nu. Que nada me restava. Então vomitei. Como se fosse algo esperado, meu corpo pôs para fora tudo que havia dentro dele. Vomitei tanto que senti que o que me afogava agora era o vômito e não mais aquela agressiva quantidade de água.

Vi aquela água suja se afastando em volta de mim. Era algo turvo, com pedaços de coisas flutuando. Tudo ia embora lentamente quando aconteceu algo realmente inesperado. Uma enorme multidão se aproximou. Eram de todos os tipos. De todos os jeitos. Como uma junção de todos que você conhece em uma vida, todos estavam ali. Eram peixes coloridos, escuros, grandes, pequenos, enormes, brilhantes e sem graça. Havia todo tipo de peixe. E eles comiam. Davam mordidas e mais mordidas. Comiam meu vômito. Comiam aquilo que teria sobrado de mim. Que seria inútil levar para uma outra dimensão. Abocanhavam a presa e partiam com alguns colegas correndo atrás de alguma sobra. Nadavam tão rápido quanto um míssil. Não acontecia uma colisão se quer. Era a perfeição da vida.

Era a vida se manifestando. Era o nosso ciclo belo e mágico mostrando que ele prevalece. A vida vem, vive e vai. A vida vive e eu vivo a vida. E a vida vive comigo. Depois ela passa. Ela continua por ai, ziguezagueando por outros vivos, enquanto eu assisto ela partir. Percebo que sou a vida, mas quando parto, ela não vai comigo. Eu é que fico aqui com ela. Sou um pedaço dela. A vida sou eu, por ai, vivendo e morrendo, me transformando e cedendo. Eu me cedo a vida. Me cedo aos peixes que me rodeiam e me torno, um pouco, cada um deles. Me cedo, vivo, a vida. Me sinto vivo, me sinto bem. Morro.

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