Desconfundido

Deixava a casa quando percebeu que tinha esquecido as chaves no banheiro. Sempre que estava se arrumando acabava se distraindo e deixava alguma coisa por ali. Celular, chave e carteira eram as principais pedidas. Não que o sorvete que prometeu levar de sobremesa no jantar já não tenha ficado ali em cima da pia. Ou a caixa com o gato de sua irmã, que pediu que cuidasse enquanto viajava. Mas não tinha memória ruim, ela só parecia não estar funcionando a todo tempo. Achava que em alguns momentos seu cérebro não registrava o que se passava a sua volta e, por isso, não conseguia se lembrar.

Da última vez, percebeu que tinha se esquecido da chave do carro quando já estava na garagem. A ideia era subir, procurar a chave, descer e ir embora. Porém, na noite anterior esquecera o celular no carro. E embora tivesse procurado por todo o seu apartamento desesperadamente, esqueceu de procurar no carro. E era lá que estava seu aparelho: em cima do banco do motorista, como quem diz: “escorreguei do seu bolso assim como uma criança desliza em um tobogã”. O grande problema é que o celular estava tocando. Pelo vidro podia vê-lo vibrar e piscar um bocado de luzes, mas o que mais lhe chamava atenção era o possível interlocutor que tinha seu número brilhando no visor. Precisava atender aquele telefonema, se tratava de uma resposta de emprego. Se não atendesse poderiam ligar para o próximo candidato, que por acaso conhecia e estava mais próximo do que pode se imaginar.

Forçou tanto a fechadura do carro que o alarme tocou. Resolveu subir correndo pra tentar pegar a chave a tempo. Mentira. Não daria tempo, antes da metade do caminho para o elevador desistiu porque sabia que seria impossível e perderia a vaga que tanto queria para: seu vizinho. Sim, era isso. Não daria tempo de subir, procurar as chaves do carro no meio da bagunça da procura do celular, descer, conseguir abrir o carro e atender a ligação. Estava tudo perdido, emprego perdido, chaves perdidas e celular meio perdido meio encontrado. Mas não era isso que o derrubava. O que realmente lhe deixava derrotado era o vencedor. O vencedor era seu querido e meigo vizinho de porta.

O problema de conhecer pessoas há muitos anos é esse: não tem como atuar por muito tempo. Mesmo que um bom ator, ninguém consegue andar mascarado pro tanto tempo, fingindo ser outra coisa que não a coisa que é. Era o caso do seu coleguinha de andar. Estudaram juntos, cresceram juntos e agora, moravam juntos no mesmo prédio. Ah, sim, e no mesmo andar. Mas eram poucas as diferenças em sua vida desde que o seu querido colega reapareceu em sua vida e mudou para o apartamento da frente. Além de uma decoração ridícula no hall de entrada, seu vizinho também aproveitou para roubar sua namorada e levá-la para morar no apartamento da frente. E claro, faz questão de não trocar a sua cama velha e barulhenta.

Desde então sua vida era um inferno. Mas naquele momento parecia ter chegado no ápice. Só tinha uma solução, esperar o telefone tocar na casa do seu concorrente, seu vizinho. Atenderia, diria que devem ter anotado o telefone errado, que aquele número era dele mesmo e que aceitava o emprego. Como o colega saia para a academia de manhã sabia que não estaria em casa. E, até onde sabia, sua ex-namorada estava trabalhando. Voou para o elevador.

Nem passou pelo hall, deu um salto da porta do elevador direto para a porta do apartamento da frente. A porta estaria aberta, desde a época de república sabia que aquele era um morador com a mania de deixar a porta destrancada. Dito e feito. Ao abrir a porto pode ver o telefone em uma cômoda. Entrou correndo quando se deparou com ela: sua ex-namorada namorada do vizinho ex-amigo. O que fazia ali?

Quando ouviu a resposta não conseguiu registrar em seu cérebro o telefone tocando. Estava grávida. Como isso é possível? Como poderia ter um filho, que sempre fora seu sonho, com aquele infeliz? Quando assumiu sua consciência de novo pulou em direção ao telefone e atendeu. Tinha razão, era do emprego novo, procuravam pelo seu vizinho. Quando conseguiu reunir um pouco de sobriedade e energia e começava a dizer quem era, percebeu que sua ex-namorada gritava “É seu, é seu! Você é o pai”.

Conta o que você achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s