Latido Meu

O cachorro do latido vinha da casa da frente. Sempre ouvia, todas as tardes. Todas as manhãs. E todas as noite. Era como se a casa fizesse barulho pro si só. Como se houvesse um moderno sistema de som que emitisse latido das paredes. Pensou que a rua podia chamar Rua Casa dos Latidos. Lhe pareceu muito infantil, mas verdadeiro.

Da sua janela não conseguia enxergar o quintal da casa. E nunca havia visto o cachorro. Seu latido não era estridente nem muito forte, era só bastante chato. Imaginava que não se tratava de um cachorro de madame e muito menos de um feroz cão de guarda. Achava que era um simples vira lata condenado a uma vida em um pequeno e estressante quintal. Sua yoga era seu latido. Com certeza não tinha muita companhia e nem fazia passeios com frequência. Não devia conhecer outros da mesma espécie. Os outros cachorros do bairro eram bem relacionados. Tinham uma série de conhecidos e, dependendo do horário de passeio a resenha era com um amigo diferente. Muitos horários de passeios coincidiam entre os moradores das ruas ao redor. Então nos horários de pico era como se os postes fossem lojas e as calçadas corredores de um shopping.

Mas o pobre latidor não devia ter essas regalias. Ele apenas vivia ali, naquele quintal. Preso e cego. Não podia enxergar além dos muros. Para ele o mundo estava ali, naqueles poucos metros quadrados. Odiava essas pessoas que tinham um cachorro só por ter. Dão comida e água para que o bichinho sobreviva e foda-se. Não levam para passear, não deixam que ele tenha amigos fora de casa e não se importam se ele tem espaço suficiente para conter os nervos no lugar.

Por isso latia. E continuaria latindo. Não se incomodava mais com o latido do cachorro da mesma forma que antes. Agora o que lhe incomodava eram as condições de vida do cachorro. Era como se cada vez que o cão latisse fosse trazida a lembrança de que estava ali, sozinho, em um espaço minúsculo, sem liberdade e sem amigos. Aquilo lhe dava nos nervos. Mas estava jogando no computador e não sairia dali para resolver aquilo.

Conforme os latidos o deixam com mais pena e culpa, aumentava o volume do jogo. Haveria campeonato online e algum tempo e não queria saber de mais nada além de jogar jogar e jogar. Treinaria o máximo que pudesse. Era sua chance de se mostrar alguém. De conhecer novos jogadores e desfrutar um pouco do lazer do trabalho. Jogar era muito solitário de vez em quando.

Desligou o fone e a tela. A madrugada já havia chegado, sentado no sofá e esquentado uma lasanha. Era hora de tentar dormir. Tomou um copo de leite, que confortou o estomago que não recebia comida há horas. Quando deitou, sentiu-se uma bigorna em cima de uma montanha de penas. Exaustão. Relaxamento. Os olhos fecharam depressa. A respiração estava suave.

Se aconchegou com os cobertores e se sentia realmente confortável. Quando apagou a luz, prestou atenção nos latidos. As vezes era como se eles estivessem lá e não tivesse ouvindo. E as vezes era como se eles nem estivessem lá, mas sim dentro da sua cabeça, o atormentado. Essa era uma dessas vezes. Cobriu a cabeça com o travesseiro. Mas agora parecia que os latido vinham de dentro da fronha. Passou algum tempo assim, mas aquilo não funcionaria.

Decidiu acabar com aquilo de uma vez por todas. Havia um pote de veneno de rato que comprara em tempos passados, quando tinha ideias não muito saudáveis na cabeça. Pegou um pão na cozinha e o pote de veneno. Abriu o pão e fez um belíssimo sanduíche da morte. Olhou pela janela. Avaliava a distância entre seu braço e o quintal do latidor. Aliviaria sua dor para sempre.

Jogou o pão fora. No lixo da cozinha. O que pensava que estava fazendo?? Colocou um casaco grosso e saiu de casa. No hall do apartamento tomou um susto com a cor das paredes. Antes eram brancas, agora azuis. Fazia tempo que não saia. A mochila nas costas seria para colocar o cão dentro dela. Sim, invadiria a casa e libertaria para sempre o cão e seus latidos. Do elevador ainda ouvia latidos.

Passou pela portaria olhando para baixo, como se pudesse esconder sua identidade. Deu a volta no quarteirão e se viu em frente a casa que tinha o quintal encostado nos fundos de seu prédio. Avaliou o portão, os muros e se havia algum sistema de segurança. Parecia uma casa abandonada na verdade. O máximo que conseguia imaginar era uma velhinha que vivia ali com o mesmo pote de açúcar e o mesmo filtro de café a no mínimo 30 anos. Pulou o portão da frente que era daqueles baixos que eram comuns antigamente. Pelo corredor lateral da casa chegou até um segundo portão que dava acesso ao quintal. Era de chapa de metal fechada, parecia mais moderno. Em uma tentativa inútil tentou estourar a trinca batendo no portão com o ombro. Arrastou um vaso que estava perto do portão para usar de degrau para pular aquela barreira. Quando se viu, estava no quintal.

Mas ali não havia latidos. Não havia ninguém. Nem latidos nem ninguém. Andou por todo o quintal e não havia fezes ou vestígios de que um cachorro vivia ali, como um brinquedo ou algum objeto destruído. Mas ainda assim ouvia os latidos.

Olhou para cima, e viu a janela do seu quarto. De lá saia um latido de cachorro insuportável.

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