Dia Seguinte

Chovia mas mesmo assim eu sai. Não me importava as roupas molhadas ou meus pés, que vestiam um par de tênis recém comprados, submersos nas poças d’água. Apenas precisava chegar no horário. Vivo ou morto. Mas no horário. Sempre tive problemas com pontualidade, então não seria nada difícil um atraso significativo.

Me lembrei dos tempos áureos de infância. Fazia tudo atrasado. Comecei a andar tarde. Chegava na escola atrasado. Fui sempre o último a ser escolhido nos times de futebol na educação física. Perdia os melhores desenhos animados da programação televisiva. Quando ligava a TV já passava o Jornal e era hora de dormir. Deitava na cama e ficava enrolando, rolando de um lado para o outro. Dormia quando já era hora de acordar, passava o dia cansado, distraído e atrasado.

E esse circulo vicioso se mostrou bastante consistente até hoje. Até o momento em que eu olhei pela janela e chovia. E se eu não saísse naquele exato segundo eu perderia a hora. Vi o coelho da Alice passando pela porta e não me contive: Sai correndo.

Ele foi na frente. Parava de vez em quando para olhar o relógio. Eu também. Cada parada percebia que estava mais perto e mais atrasado. Mas daria tempo. Dessa vez eu conseguiria. Minha respiração estava no time rival. A água que descia o meio fio em velocidade recorde também. Mas meu coração gritava para ir mais rápido. Pude ver as torres distantes, lá no alto. Era a reta final e o coelho já estava bem na frente. Dei tudo de mim e subi a rua fazendo careta de herói em filme. A essa altura já estava encharcado. Mas isso não importava nada.

Fui me aproximando do orelhudo. Me sentia realmente capaz. Estávamos realmente perto da igreja agora. Era possível ver os vitrais iluminados em contraste com o céu negro e os trovões. Era realmente uma tempestade. Puxei o coelho pelas orelhas e o coloquei no bolso. Já estava apto pra controlar meu tempo. Controlar minha própria vida. Um sorriso tomou conta do meu rosto enquanto o dono do tempo se remexia. Corri mais rápido.

Me joguei contra a porta. Minhas solas emborrachadas vacilaram e eu entrei me atirando e rolando pelo chão. Fiquei na dúvida se foi uma cena de filme de ação ou de comédia. O padre parou a cerimônia e me olhou assustado. Tive medo que ele tentasse me exorcizar ou qualquer coisa do tipo. Mas sai correndo em direção a ela. Pouco me importava com meu público que fazia caras e bocas.

A puxei pelo braço mas travei. Tentei me mexer mas não consegui. Ela levantou o véu e me olhou nos olhos. Se aproximou de mim e perguntou o que eu fazia ali. Por um instante eu me perguntei a mesma coisa. Mas o que perguntei foi quem era ela. Nesse momento ela me deu um tapa na cara e começou a espernear. O Padre nos separou e me levou para atrás do altar.

Tudo aquilo me deixou muito feliz. Finalmente consegui quebrar o ciclo vicioso do atraso: o casamento que eu deveria impedir e conquistar a mulher da minha vida era só no dia seguinte.

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