Rosto

Olhei seu rosto. Foi rápido. Logo ele abriu uma conversa no whatsapp e não pude mais reparar nos seus traços, no seu cabelo, nas suas roupas. Estava apertado ali, então não quis ficar tentando reparar.

Embora estivéssemos em pelo menos três pessoas por metro quadrado, pensei em como estamos distantes. Todos em silêncio seguíamos em frente sob os trilhos do metrô. Conhecia de vista uma porção das figuras que estavam por ali. Todos os dias pegávamos o mesmo trem. Cada um descia no mesmo lugar. E durante o percurso, todos faziam a mesma coisa: se fechavam em suas bolhas e liam, ouviam música, mexiam no celular, dormiam ou assistiam à TV Minuto.

Fiquei incomodado com aquilo. Queria saber quem eram aquelas pessoas. O que elas faziam da vida. No que acreditavam. O que fazia elas pegarem o metrô todo dia. Será que elas gostavam dos seus empregos? Será que tinham famílias? Será que eram felizes? Mas o que mais me intrigava era que ninguém se falava.

Mas não havia nada que eu pudesse fazer ali, naquele horário que unisse as pessoas e que reconectasse o mundo. Dei passagem para alguém que sorriu e agradeceu enquanto eu recebia uma ombrada de alguém apressado. Então tomei coragem e decidi olhar melhor aquele rosto e tentar puxar algum assunto ou estabelecer qualquer tipo de conexão. Mas eu não sabia quem era. Para falar a verdade não sabia dizer se era homem ou mulher: o rosto que eu vira era apenas a proteção de tela de um celular qualquer.

Foto: Luiz Maudonnet

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