Relaciona Dor

Se pôs a disposição para o que precisassem. Os hóspedes pareciam contentes e à vontade. Eram recém chegados e deveriam ter feito uma longa viagem até ali. A cor de sua pele não era comum naquela região. Além do mais, suas vestimentas pareciam ser algum tipo de gozação, fantasia ou traje de algum rito especial. Olhou em volta esperando algum tipo de resposta. Não encontrou nada.

Então olhou para o céu azul em procura de alguma dica. Ali o céu era tão azul que as nuvens pareciam de mentira. Mas naquele momento não havia absolutamente nenhuma nuvem no céu. Como de costume, era raro ver nuvens por ali. Mas chovia muito. Era uma verdadeira tempestade. Tremendo azar dos novos hóspedes. Mas eles pareciam não ligar. Ofereceu capas de chuva, perguntou se precisavam de algo e se retirou diante da resposta negativa.

Era muito estranho isso de conhecer pessoas novas e elas irem embora sempre. Era como uma série de relacionamentos fraudulentos. Como se tudo sempre fosse mentira desde o começo. Era comum ouvir agradecimentos e juramentos de retorno. Mas eles costumavam fechar as contas e partir sem olhar para trás. As vezes recepcionava pessoas que ficavam ali quinze ou vinte dias, servia o café da manhã diariamente e nem sabiam seu nome. Era um anônimo do início ao fim, por mais carinhosos ou agradecidos que parecessem, quem passava por ali, só estava de passagem.

Chegou a se questionar se realmente existia. Ou se era apenas uma miragem ou algo do tipo. Se era visível e audível ou era apenas parte daquele entra-e-sai de vidas. Talvez fosse tudo alucinação. Pessoal ou dos hóspedes. Quem sabe todos eles não eram loucos. Ou quem sabe eles é que não existissem. Talvez estivesse ali servindo a ninguém durante todos aqueles anos. Talvez tudo que havia a sua volta fosse fruto da sua própria imaginação. Talvez fosse um filme. Talvez fosse um sonho infinito. Talvez estivesse em coma. Talvez também não fosse a primeira vez que uma pessoa olhou em volta e desconfiou se o que vivia era verdade.

Se beliscou e sentiu dor. A dor mostrou que, pelo menos em parte, alguma coisa era verdade. Esquisito pensar que a dor mostra que existe vida. Que a dor a vida ou a vida é dor. Mas não sua vida não se tratava de dor. Mesmo que ela pudesse comprovar qualquer dado de realidade.

O fato era que estava contente ali. Como um anônimo. Se sentia livre, para poder trabalhar em paz, sem ninguém saber seu nome, nem se lembrar de quem era. Era só alguém que tinha o privilégio de conhecer um bocado de gente esquisita. Que podia simplesmente assistir a vida dos outros a vontade. Que passava seus dias assistindo filmes de vidas alheias. Que podia escutar conversas dos jantares de estranhos. Que ficava sabendo de coisas do mundo afora. Que vivia um pouquinho da vida de cada um.

Chegou a conclusão que se saia bem nessa história. No final das contas roubava um pouco da vida de cada um para alimentar sua imaginação. Mas ninguém lhe roubava nada. Afinal, talvez nem existisse.

Conta o que você achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s