Viva

E foi ali, quando começou a chover e tive que deixar a praia a passos rápidos que percebi como você foi importante para mim. Talvez precisasse estar aqui, na sua terra, ouvindo seu sotaque saindo de cada boca, percebendo seu jeito nos jeitos das pessoas desse lugar. Só assim senti algo que mexeu comigo de verdade. Algo que me tirou o sorriso da rosto e me colocou nesse estado contemplativo, assistindo a chuva cair. Como se você estivesse do meu lado e tivesse corrido da chuva também. Provavelmente teria o feito sorrindo, com seu gigantesco e belo sorriso branco como as nuvens. E agora estaríamos aqui, nessa varanda, calmos, contemplando a natureza, o cheiro da água e os sons desse lugar. O barulho do mar ao fundo para lembrar que assim que a chuva passar a praia vai continuar lá, linda.

Era isso que eu queria de você. Que você continuasse linda para sempre, como a praia. Acho que vai continuar na verdade. Pelas fotos que tenho visto você continua. Mas vai continuar longe de mim. Como se chovesse para sempre e eu tivesse que ficar longe da praia, me protegendo da chuva.

Eu sei que fui eu que escolhi chover. Você me disse que seria uma escolha para sempre, que eu não poderia voltar atrás. E eu disse que sim. Que era essa a escolha. Que não me arrependeria. E eu escolhi chover para sempre. Escolhi ficar longe de você. Escolhi seguir sozinho pela praia enquanto houvesse Sol. Viver minha vida sem amarras e sem juras. Viver sem dar satisfações e sem podas.

Mas não era você que me prendia. Era eu que me prendia. E eu que queria me soltar em um momento que precisava. A pouca idade pede liberdade. A pouca idade exige atender a todas as vontades. Então escolhi o que meu coração me gritava para fazer. Mas escolhi errado.

Na verdade escolhi certo. Escolhi certo na hora certa. Mas agora, escolheria diferente. Não renunciaria você. Não deixaria tudo de lado só para não perder a chance de poder deixar tudo de lado. Mas não sou mais a mesma pessoa que era. Sou diferente. Não seria a mesma pessoa fazendo a mesma escolha. Seria uma pessoa diferente, em outro momento, fazendo uma escolha completamente distinta. Quase que outra vida, outro filme, outra história.

Por isso, me acalma pensar que você também é outra pessoa hoje. Uma pessoa que eu não conheço. Uma pessoa que talvez eu não me desse tão bem. Que não risse à vontade, que não conversasse sobre tudo. Uma pessoa que não tenha mais um sorriso tão lindo. Me tranquiliza acreditar que não daria certo. Que levamos vidas diferentes em lugares diferentes. Que não somos um casal e nunca seríamos.

Mas no fundo, no fundo. Algo me diz que seria lindo. Que seria maravilhoso estar com você de novo. Não importa por quanto tempo. Mesmo que fosse breve como essa chuva. Essa chuva que veio, me tirou da praia, me trouxe até você de novo. E agora passou. Agora o cheiro do mato entra em mim e me lembra que já posso voltar para a praia. Que ela vai estar lá, linda me esperando. E chegando lá, eu vou olhar em volta e te procurar, mas sei que não vou te ver. Talvez te veja na alegria desse povo, talvez te veja de relance no rosto de uma mulher bonita. Mas sei que não. Você não vai estar lá. Sei que não vamos estar.

A única coisa que sei é que, se chover de novo, na praia, vou ficar.

Foto: André Dib

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