Goela

Já faz alguns dias que sinto essa vontade esquisita de vomitar. Como se isso fosse resolver meus problemas. Como se eu pudesse enfiar o dedo na goela até que saísse de mim tudo aquilo que me incomoda. De preferência na cara de alguém. Ou no carro de algum filha da puta, desses que param nas vagas de deficientes.

Sei que isso não resolveria nada. Que muitos me diriam que é uma atitude infantil e escrota. Mas no final das contas, eu quero mais é que se foda. Acho inclusive que é por isso que tenho essa vontade louca de vomitar. Porque quero mais é que se foda um monte de coisas que eu não posso fazer nada a respeito. O mundo não vai parar de girar pra eu poder descer na hora que quiser. E justamente porque aprendi a postergar e curtir a viagem, mesmo que não seja a ideal, é que quero fazer bom uso da janelinha e vomitar enquanto é tempo, antes de chegar no destino final.

Esculhambar essa tranqueira toda e sujar tudo, sem dó. Acho que se eu vomitasse seria um vômito nojento. Daqueles fedidos e grudentos, que depois que seca, em cima de um tapete por exemplo, não tem o que fazer. A dona de casa tem que chamar os bombeiros, recortar um pedaço do chão e enviar pro espaço, como lixo tóxico. Seria matéria em todos os jornais. Capaz até que descobrissem uma nova galáxia ali no vômito. Vida intraterrestre: uma colônia de filhas da puta que moram na gosma, seus planetas cretinos orbitam ao redor de um enorme núcleo de restos fedidos concentrados.

Não sei de onde vem isso. Não é raiva. Não é ódio. Não é rebeldia. É só vontade de vomitar até tossir. Até sair aquele líquido amarelo absurdo que sai de dentro da gente. Não sei de onde vem, sei que sai de dentro da gente. Todo mundo tem isso. Aliás, todo mundo é um monte de coisas fétidas e asquerosas por dentro. Mesmo a Miss Universo ou o galã da novela: eles fedem pra caralho por dentro e são nojentos.

Talvez seja nojo. Nojo de como, na realidade, as mais belas coisas desse mundo fedem quando morrem. Nojo da morte? Não apenas. Nojo da vida também. Do cheiro de um cordão umbilical apodrecendo na barriga de um recém-nascido. Nojo do gozo que sai de dentro de um cara, pra entrar na boceta fedida de uma mulher. É nojo dos bastidores. Do que acontece por trás de tudo que acontece por ai, mundo a fora. Nojo da digestão que acontece agora, na barriga de todos e mais nojo ainda da merda de todo mundo se misturando ao mijo de todo mundo em um esgoto fechado e cheio de doenças e vida. Vida de microrganismos, bactérias, vermes, parasitas e decompositores, felizes pra caralho. É a vida e a morte se encontrando banhadas em nojo.

Mas como dizia, o mundo não vai parar de girar. Todas essas coisas nojentas vão continuar acontecendo, independente de alguém querer ou não. E o mais insano é que sem elas ninguém vive. A vida é nojenta por dentro. Mas a vida é bela. Ela vale a pena, mesmo sendo nojenta. E ninguém pode tirar isso de mim, o jeito como deito na areia da praia, olho o Sol e sorrio. Respiro e me sinto vivo. O beijo que dou na minha amada. E a minha felicidade em ver os primeiros passos do meu filho. Minha família dando risada. Meus amigos aprontando alguma por ai. Meu trabalho me reconhecendo. E eu me divertindo a beça diante disso tudo. Sentindo meu coração apertar nos momentos tristes. Tendo raiva nos momentos difíceis. E sentindo essa vontade bizarra de vomitar.

A vida nunca está desacompanhada. Ela sempre vem junto da dona morte. Mas no final das contas, essas duas safadas formam uma boa dupla. São inseparáveis e se dão bem. Cada uma vê o mundo à sua maneira. E o grande desafio é compreender e aceitar que não existe só vida, nem só morte. Essa mistureba nojenta de vida e morte é a nossa jornada. E está ai, pronta pra ser sua. Basta você vomitar pela janelinha e seguir em frente. Conquistar seu caminho, abraçando as dores das perdas e comemorando a felicidade das conquistas. A essa altura eu já enfiei o dedo na goela, você vai ficar ai, lendo textinho na internet?

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