Cidadão marginal

Esse é um texto sobre a relação das pessoas com a cidade. Relação que tem se transformado com uma frequência cada vez maior em grande centros urbanos como São Paulo. Diante de tal cenário de múltiplos interesses, necessidades e mudanças tanto de grande quanto de pequeno impacto na vida individual e coletiva, os poderes públicos devem tomar decisões rápidas.

Foto: Av. Paulista/Prefeitura
Foto: Av. Paulista/Acervo da Prefeitura de São Paulo

Uma dessas decisões foi diminuir a velocidade da Marginais. E essa decisão, por ter um impacto significativo, tanto coletivo quanto individual, se tornou pauta da agenda pública e midiática. Na vida pessoal dos paulistas, isso impacta o tempo que um pai demora para levar seus filhos ao colégio e em seguida ir para seu trabalho. Também impacta a quantidade de tráfego que uma ambulância vai enfrentar para salvar uma vida. Já os impactos coletivos são muitas vezes enxergados apenas por aqueles que convivem diariamente com eles: os planejadores urbanos, políticos, administradores públicos e superintendentes do tráfego dessa cidade gigantesca. Essas pessoas tem dados e informações, que nós, meros mortais não temos. Isso nos torna cegos para algumas consequências dessa decisão. Número de acidentes na via, quilômetros de congestionamento em determinadas áreas, rota de ambulâncias, índice de roubos no trânsito, rota de fuga de carros roubados, dinheiro público gasto em acidentes, desgaste do asfalto em relação a velocidade média dos carros. E por ai vai. São infinitas as informações que podem ser geradas e devem ser consideradas em um sistema complexo como a cidade de São Paulo.

Foto: Renato Lobo/Viatrolebus
Foto: Renato Lobo/Viatrolebus

Então a decisão está certa ou errada? Se você ainda não assistiu essa entrevista com o Prefeito Fernando Haddad feita pelo Catraca Livre e essa feita pela Vice Brasil, talvez você não conheça a ideia de Cidade-Parque, utilizado muitas vezes pela prefeitura para tomar algumas decisões. Acho que esse material pode esclarecer muitos pontos de vista que você não leva em conta quando reclama das ciclovias, por exemplo. Levando em conta esse conceito de Cidade-parque, que busca tornar a relação das pessoas com a cidade parecida com a que elas tem em um parque, diminuir as velocidades máximas das marginais foi uma ótima e coerente decisão. Diminuir as velocidades de todas as vias de São Paulo têm sido uma medida tomada pela prefeitura com esse objetivo: tornar o fluxo das pessoas mais humano e menos mecânico. Ter tempo para observar a cidade, ver lugares que nunca viu e conquistar a calma para circular pela cidade é realmente algo louvável. Além disso, ao transitar em velocidade reduzida em bairros, por exemplo, você dá chance para que crianças tenham mais segurança para brincar na rua e também permite que sua querida avó possa atravessar a rua tranquilamente para conversar com sua amiga vizinha: isso é a retomada das ruas. Isso é o cidadão se relacionando com a cidade de uma maneira mais saudável.

Foto: Felipe Larozza/VICE
Foto: Felipe Larozza/VICE

Por um outro lado, existe a relação causa-consequência. E pensando nela, foi uma péssima decisão diminuir velocidades. Existem sintomas muito aparentes na cidade: violência, tráfico, enchentes, falta de escolas e hospitais. Esses sintomas costumam ser combatidos e tem-se como objetivo acabar com eles. Quando na verdade, seria mais inteligente e produtivo trabalhar para acabar com as causas. É exatamente igual uma doença: conter as dores não significa que você sarou, é preciso entender a causa das dores e resolve-la. Um exemplo claro disso é o trabalho do prefeito Rodrigo Guerrero de Cáli na Colômbia. Epidemiologista formado em Harvard, Rodrigo usou seus conhecimentos para conter a visível e incômoda onda de violência e drogas da cidade, como explica essa matéria. Ele não adotou uma conduta de punição mais rígida, coisa que não havia funcionado até então. Ele entendeu que o que havia ali era uma epidemia e, para curar uma epidemia, não se ataca seus sintomas. O que é feito, é uma modificação do ambiente que permite que tal epidemia permaneça viva. Essa ideia é muito parecida com a do Johann Hari que escreveu esse texto sobre o vício em drogas.

Foto: Revista Meu Pet
Foto: Revista Meu Pet

Portanto, não é diminuir a velocidade que vai diminuir o número de acidentes de maneira eficiente a longo prazo. Até porque, condutores habituados a dirigir em velocidade reduzida na cidade, provavelmente estarão despreparados para a estrada. A velocidade é um sintoma e não a causa. Claro que ao diminuir a velocidade, aumenta-se a chance de ter um reflexo mais rápido em uma situação de emergência. Então qual a causa? A causa é justamente a relação do motorista com os outros condutores e a sua capacidade de reagir a qualquer situação perigosa. Desde pista molhada, batida, crateras gigantescas na pista ou sinalização que induz ao erro, entre muitos outros. O problema é a formação do condutor e a sua relação com o ato de dirigir e com as pessoas a sua volta. Hoje em dia existe o aplicativo Waze, permite que você corra o quanto quiser entre lombadas eletrônicas, blitz e radares. Permite que você faça uma rota mais rápida e chegue em casa mais cedo. Além desses impactos pessoais, o aplicativo diminuiu em centenas de vezes o esforço e os recursos que os órgãos públicos precisam gastar para entender o fluxo de carros na cidade, os pontos com mais acidentes e outras milhares informações. Em poucos instantes é possível ter uma mapa de fluxo muito mais preciso e atual do que aqueles feitos pela CET que demoravam anos para serem produzidos além de contribuir para o esvaziamentos dos cofres públicos.

Foto: Waze
Foto: Waze

Como transformar a relação das pessoas com a cidade e diminuir o índice de acidentes sem destruir lares? Algumas medidas podem ser tomadas. A primeira é manter a diminuição da velocidade máxima na pista local para 50km/h. Ali o motorista está sempre perdido ou próximo de entradas, comércios e bairros. É coerente com um plano muito maior de tornar a cidade mais humana que essa pista tenha velocidade reduzida. A segunda medida é manter a velocidade da pista expressa e central mais alta, com a seguinte condição: resolver a causa dos acidentes, que é a capacidade do motorista de reagir a situações perigosas e se relacionar no trânsito. Ao invés de simplesmente aumentar o número de aulas práticas e teóricas nas autoescolas que tal mudar o conteúdo e local dessas aulas? Porque não ter um número mínimo de horas de aula prática em uma pista apropriada para simular situações perigosas? Talvez fosse mais baratos que simuladores e com certeza, mais úteis. Aulas de direção defensiva e pilotagem seriam, não só muito divertidas, como também extremamente eficientes. Como desviar de um objeto na pista se não se aprende isso? Como frear apropriadamente em pista molhada sem nunca ter tentado? Dirigir a velocidade reduzida e situações irreais durante as aulas atuais é uma ótima receita para formar péssimos e despreparados motoristas e cidadãos. Porque não trabalhar a relação emocional que o motorista tem com o carro e com o trânsito? Já existem iniciativas como essas vindo da Porto Seguro, por exemplo, que oferece cursos aos seus assegurados.

Então? Tentando criar uma harmonia entre os impactos pessoais e coletivos, é possível chegar a algumas conclusões. Uma delas é entender que existem interesses coletivos e individuais que demoram algum tempo para se ajustarem. Chegar em casa cedo não necessariamente significa que a velocidade máxima deve ser aumentada. No horário que você volta do trabalho vai ter trânsito de qualquer jeito, pelo menos por algum tempo isso é uma certeza. Então meça o real impacto dessa diminuição. Calcule quantos minutos a mais você levará para percorrer esse trecho, aposto que não será mais do que o tempo que você gasta no Whatsapp esperando uma consulta médica. Lembre-se que um dia você brincou ou quis brincar na rua, essa diminuição geral de velocidade permite que alguém da sua família passe por essa experiência. Além disso, você pode andar de carro pela cidade no final de semana sem pressa e sem ter alguém buzinando atrás de você porque, no geral, as pessoas vão curtir mais circular por uma cidade que se sentem parte. Se as pessoas tiverem uma relação mais próxima com a cidade elas serão mais gentis e altruístas no trânsito. Se você é desses enfurecidos, procure no dicionário o significado de “altruísta”, tenho certeza que você nunca ouviu falar disso. Além do mais, esse tipo de transformação leva tempo até se ajustar ao conjunto complexo da nossa enorme e diversa cidade. É óbvio que em um primeiro momento haverá muito mais trânsito. Mas que consequências isso pode trazer em 2, 5, 10 ou 20 anos para a sua cidade?

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