Fome

O café da manhã era servido pontualmente todos os dias. Não que se sentasse a mesa todos os dias no mesmo horário. Mas se fosse até a varanda, saberia que ali estaria servido o banquete do desjejum. Também não eram todos os dias que comia. Alguns deles passava o tempo olhando o movimento do lado de fora do seu mundo de concreto. Se alimentava da vista e deixava a comida de lado.

Foi em um desses dias que levantou da mesa de barriga cheia. Não comeu nada, mas estava satisfeito. O dia estava lindo e bastava observar os poucos resquícios de nuvens para enxergar um céu azul imenso. Um céu violentamente azul, com delicados desenhos e nuances feitos à la nuvem, com molho de calor e tempero de vento. Embora fosse feito com calor, o prato não era quente. Tudo ali parecia estar em perfeito equilíbrio. O céu teve todo o seu sabor e intensidade harmonizados com as pitadas de nuvens. Enquanto que o vento fresco amenizava o calor. Cozinha sob medida, era o que pensava.

Aquilo bastava para que começasse o dia bem. Para que pudesse ter apetite para se alimentar do que visse durante o dia. Para que, nas ruas cinzas e sem graça, pudesse enxergar um petisco para a sua alma. Um lanche para seu coração ou, quem sabe, uma verdadeira refeição para sua imaginação.

Não sabia o que haveria para comer na manhã seguinte. Mas tinha certeza que poderia comer o que quisesse. Que, dali da varanda, poderia se alimentar de verdade. Seus olhos eram muito maiores que seu estomago. E isso lhe permitia se empanturrar de vida. Podia comer a vontade. Podia experimentar de tudo.

E quando se via por satisfeito, via algo que lhe abria o apetite. E então, começava tudo outra vez. E de tanto comer, mais fome tinha. Mais queria petiscar de tudo um pouco. Pode se dizer que as vezes, tinha uma crise, passava dias comendo, sem parar. Até que passasse mal. Até que tudo aquilo que vivera chacoalhasse demais seu cérebro e entrasse em colapso. Se alimentava da vida. E, de vida, passava mal.

E em uma dessas crises, em que se interessava por tudo que estava em seus campos sensoriais, parou diante de um objeto magnífico. Um objeto que jamais tivera toda a atenção que merecia. Se tratava de um espelho.

Imóvel, permaneceu ali durante o tempo necessário para digerir a cena. Se olhava fixamente, reparando em todos os detalhes. Na face, no corpo, nas vestimentas, na respiração…até que começou a se movimentar. E então passou a perceber as infinitas possibilidades de movimentos que seu corpo tinha capacidade de fazer. Em seguida vieram as caretas. Fantásticas. Era um puro fascínio. Um prato cheio para quem gosta da vida. Reconheceu muitos gostos que já experimentara ali naquele prato de si mesmo. Reconheceu muito do que vira pela varanda no que via ali, naquele espelho.

Foi então que percebeu o que realmente tinha ali. Costumava despender grande parte do seu dia se alimentando do que via. Observando a janela, as coisas, as pessoas e as paisagens. Aquilo era o que precisava para sobreviver, era seu alimento. E, diante daquele espelho, não sentia fome. O espelho nutria de uma maneira diferente, de uma maneira mais intensa. De modo que se sentia mais livre para comer o que quisesse, no tempo e medida que julgasse mais apropriado.

O que procurava pela vista da varanda era aquilo. Algo que estava debaixo do seu nariz, mas ao mesmo tempo muito distante, quase inalcançável. Procurava por aquilo que refletia no espelho, procurava por si.

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