Meu Bem

Cheguei e disse oi. Ele me respondeu sem muita simpatia. Aquilo me incomodou um pouco, mas já sabia que era seu jeito. Não gostava de ser incomodado quando estava escrevendo. Passei reto pelos cumprimentos desgostosos e fui direto pro banho.

Era dia de lavar o cabelo, o que fez com que ele tivesse tempo para terminar de escrever. Quando eu sai do banho ele me esperava deitado na cama. Parecia muito cansado, mas quando apareci ele deu um sorriso e disse com sua voz brincalhona: “Então quer dizer que ela tomou um banho gostoso, tá toda cheirosa, peladinha, com um turbante na cabeça!?”. Não deu tempo de rir, antes disso ele arrancou a toalha da minha cabeça, começou a bagunçar meu cabelo e me enxugar com sua roupa. Caímos na gargalhada e nos beijamos.

Levantou rapidamente e disse que estávamos atrasados. Perguntei para quê e a resposta foi um sorriso malicioso e um tom de mistério. Abriu minha gaveta de calcinhas, escolheu uma e me vestiu delicadamente. Depois disse para eu escolher uma roupa confortável, estaria me esperando na cozinha, enquanto preparava algo para nós. De lá, gritou para eu ir mais rápido. Eu sabia que era blefe, tinha medo que eu me demorasse muito. Tive uma roupite de alguns minutos mas logo escolhi uma calça de moletom e uma regata leve. A noite estava quente mas lá fora o vento era frio.

Ouvi o som do carro ligando e sua voz gritando meu nome. Ele sempre fazia isso para me apressar. Eu demorava um pouco mais de propósito. Entrei no carro e perguntei para onde íamos. A resposta foi um aumento no volume do som e um “o que? eu não ouvi!” dito de forma forçada. Dei risada mas comecei a ficar ansiosa. Odiava sair de casa sem saber para onde ia. Estávamos pegando um caminho estranho e eu ainda não tinha nenhuma pista de onde estávamos.

Mas era fato que subíamos. Deixei estar e coloquei a mão na sua coxa, como minha mãe fazia com papai quando viajávamos nas férias. Me senti velha e ao mesmo tempo cheia de energia. Já tinha hábitos de velhos. Já fazíamos coisas de velho e já estávamos ficando mais velhos. Mas a alegria e a surpresa gotejavam no dia-a-dia de maneira que sempre acontecia algo surpreendente e mágico. Essa era uma dessas vezes.

Chegamos no topo de uma colina. Estávamos longe do centro da cidade, mas não fora dela. Ele me olhou nos olhos, pegou a mochila no banco de trás e saiu do carro como um menino que chega na praia durante as férias. Me puxou pela mão e me levou para perto de umas pedras enormes, demos a volta nelas e escalamos um trecho pequeno.

Estávamos no topo. Surpreendentemente a cidade estava toda iluminada atrás daquelas pedras. Era um mirante natural belíssimo. Estendeu uma canga e puxou um vinho da mochila. Abriu, nos serviu e finalmente respirou fundo e relaxou. Era tudo um presente pra mim, eu sabia. Por ele, estaríamos na praia. Mas eu tinha que ficar aqui no final de semana e passamos por uma discussão a respeito da nossa programação que não terminou bem. Ele realmente queria estar na praia.

Pensei como perdemos tempo à toa. Como deixamos morrer a criança dentro de nós para dar lugar ao cotidiano maçante que está de olho no amanhã. Me senti mais nova agora. Como se tivéssemos fugido da escola e ido nadar no rio. Me sentia perto da natureza. Me sentia mais perto de mim. Tive vontade de jogar colina abaixo minhas responsabilidades e compromissos. Mas segurei eles com força quando lembrei que quando a gente cresce só mudam as brincadeiras, mas elas continuam tendo a mesma importância para nós. O trabalho, as contas e os problemas são os mesmo de quando éramos crianças, mas com uma cara mais séria.

Deitei no seu colo e segurei sua mão. Ficamos em silêncio por um tempo. Como que contemplando a cidade, o momento e nós, ali, juntos. Sentei ao seu lado, segurei sua mão e disse que agora era minha vez. Levantei e sai correndo. Ele gritou por mim, mas era tarde demais. Quando chegou ao carro eu já estava no banco do motorista. Pude vê-lo chegar com a canga e as coisas na mão, desengonçado. Já havia manobrado o carro e quando o ele entrou, partimos.

Engraçado foi vê-lo muito mais ansioso e impaciente que eu para o nosso próximo destino-mistério.

Fomos para a praia.

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