Fumaça

Me deitei e pude sentir meus pulmões pesarem. Meus dentes permaneciam fortes, amarelos e intocados. Mas eu podia sentir minhas gengivas como se elas fossem de gelatina. Não seria capaz de mastigar uma sopa agora. Mas insisti em fazer força nos meus lábios até que eles fossem capaz de segurar o cigarro enquanto eu buscava o isqueiro com minha visão turva.

Acendi e puxei. Na verdade não sei o que fiz antes. Sei que fiz as duas coisas como se fossem as últimas que faria. Eu sabia que não eram. A vida ainda me guardava um punhado de quimioterapias, tosses e dores que só uma doença traz: a mental.

Tentei apagar a luz, mas o que batia no meu rosto era a luz do Sol. Achei que tivesse acabado de deitar para dormir. Mas havia acabado de acordar. Só podia pensar em mais uma longa e inteira noite de sono. Da qual eu pudesse apenas me lembrar que o tempo passou mais rápido.

Sair do limbo onírico e passar a realidade era algo que eu não tinha mais o costume de fazer. Já devo ter passado alguns dias por aqui sem perceber que o tempo passou. Comprimidos. Isso é tudo que um ser humano precisa para perder totalmente a realidade de qualquer coisa. Vivemos em um filme, muito mal dirigido por sinal.

Bati o cigarro no cinzeiro. E percebi que mais uma vez fumava algo que não existia. Acontecia com frequência desde que alguns exames e um médico disseram que eu deveria parar de fumar durante as quimios e os leves tratamentos para tudo que fiquei devendo dos anos que não passei perto de um homem de branco. Costumava acontecer de noite, ou entre uma dose e outra dessas cápsulas que me fazem dormir e parar de sentir dor.

Sim, era um cigarro imaginário. Assim como tudo que eu vivia em meio aos cobertores e o quarto recluso a minha volta. Meu mundo imaginário de mim mesmo. Resolvi começar uma nova jornada. Então levantei e fui até a primeira torneira que me desse água suficiente para tomar tudo o que eu precisava. Já não seguia mais os horários dos remédios. Tomava quando acordava e conseguia um pouco de água.

Dessa vez consegui bastante. Tomei tudo. Me preparei para mais uma viagem para dentro dos lençóis e parti. Antes que pudesse adormecer, já sonhava com tempos passados. Me lembrei de quando começou tudo aquilo. As tossidas pareciam saudáveis e jovens. Eram sinceras e inexperientes também. Assim como todos que compartilharam os primeiros tragos comigo. Podia me lembrar de cada um deles. Os conheci no colégio, antes de todas aquelas festas. Lá aprontamos um bocado. Pelo menos para a época. Éramos muito mais inocentes do que os jovens de hoje em dia. Hoje não se vê mais aviões de papel na sala e a criatividade trabalhando para pregar uma boa peça com o querido colega mais zoado da sala.

Senti a culpa de estar nesse estado. Me lembrei da minha família e tudo o que fizeram, mesmo que entre uma briga e outra, para que eu pudesse fazer faculdade e ter uma boa educação. Esqueci a culpa quando me lembrei das brincadeiras que fazia quando tinha menos de um metro de altura e todos os adultos riam. Eram risadas impagáveis. Tão despreocupadas e distantes quanto minha cabeça de criança.

Vivia no quintal de casa brincando com meus irmãos e os vizinhos. Não haviam grandes problemas e questões existenciais. Isso eram coisas de adultos. Eu não era um. Me preocupei em dedicar meu tempo para coisas mais importantes, como ganhar no polícia e ladrão e comer o suficiente no recreio. Antes de me preocupar com isso, era minha mãe que se preocupava. Ela era capaz de fazer as melhores lancheiras que eu já pude imaginar. Todo dia era uma surpresa e eu esbanjava gula com seus lanches maravilhosamente deliciosos. Nessa época era meu pai quem me levava a escolinha. Me lembro do seu carro enorme e da terrível ideia de passar o dia naquele lugar estranho. Depois de algum tempo me acostumei com aquilo e mesmo que dissesse que era muito chato para ele, eu me divertia a beça. As aulas não eram como na faculdade e eu não precisava estudar. As aulas eram de brincar, se sujar, quebrar coisas e gargalhar.

Nada que eu não já tivesse feito em casa. Antes de ir para a escolinha eu podia fazer tudo aquilo em casa. Não com tanto profissionalismo e dedicação. Afinal, papai e mamãe sempre estavam por lá e eu só podia fazer algumas coisas longe dos seus olhos. Coisa que não acontecia com frequência. Afinal, eu precisava de cuidados e precauções. Sempre havia alguém falando comigo com uma voz ridiculamente engraçada e brinquedos na mão. Eu não gostava quando ficavam me pegando no colo e me passando de um para o outro. Não conseguia explicar que aquilo não era nem um pouco engraçado, mesmo que suas risadas e apertões me dissessem o contrário.

Eu gostava de ficar quentinho no berço e ver mamãe chegando para me amamentar. Era como receber um prêmio por ter chorado o suficiente. E embora fosse terrível depois de algum tempo, eu adorava fazer xixi quentinho naquelas coisas esquisitas que enrolavam em mim. Depois que ficava gelado era horrível. Mas eu ainda não tinha essa noção e não fazia nenhum esforço para segurar.

No começo da vida não precisamos fazer esforço para muita coisa. É só esperar com que tudo aconteça de forma natural. E foi o que aconteceu de maneira trágica.

Antes, eu estava num lugar quente, aconchegante e escuro. E embora as coisas balançassem de vez em quando, isso não me incomodava. Eu permanecia ali e recebia tudo que precisava. Como os comprimidos, como o quarto. Nada me levaria a sentir ou saber do que acontecia lá fora. Assim como eu me sinto agora, distante de tudo e todos, em um lugar só meu.

Mas essa paz toda acabou. O que eu julgava ser a minha vida toda só durou alguns meses. E Sem que eu percebesse algo me puxou de dentro para fora, senti muito frio e meus olhos ardiam. Foi a primeira vez que eu vi alguém. Foi a primeira vez que eu percebi que existia. Foi quando chorei.

E agora, muitas décadas depois. Foi o que senti, quando fui carregado de volta para um útero. Muita luz vinha na minha cara e quando percebi estava no corredor, sendo carregado por homens de branco. Olhava com perplexidade em volta, sem entender nada. Eles falavam coisas esquisitas e me levavam para longe do meu quarto. Me levavam para mais longe da minha história, da minha mãe do meu nascimento. Me levavam como se eu fosse um bebê em um mundo novo, no qual, sozinho, não sobreviveria.

É assim que vivemos. Sem entender aquilo que nos cerca. Aquilo que nos prepara para um novo lugar, um novo espaço, um novo útero, um novo quarto. Quem diria o que há no Universo lá fora? Quem diria o que há fora do seu útero-mundo?

Pois bem, ninguém diria. E não sou eu que lhe direi. Agora estou aqui, nesse novo lugar. Muito mais incrível do que o primeiro e o segundo que estive. E fico feliz, por ter vindo. Por ter deixado minha história para trás. Por ter me conhecido novamente. Obrigado, minha querida vida, por ser assim tão cheia de altos, baixos, surpresas e promessas.

Boa sorte na sua jornada.

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