Parto

Sonhei que a ouvia tocar. A música era tão bela que era capaz de levantar meu corpo e pô-lo a flutuar enquanto eu dormia. Não se tratava de um sonho ou de um devaneio. Era realidade! Me deixei levar pelos tons doces da mesma maneira que me entreguei as notas agudas. Eu não ouvia mais a música: ela passava por dentro de mim, dominando todos os espaços. Dominando meus músculos e movimentos. Dominando meu cérebro e meus pensamentos.

A música me tocava de verdade. Como se cada nota fosse uma palavra como se cada célula estivesse sendo preenchida de som, eu sentia que lia uma história de amor e ódio. Uma história de muitos calafrios e abraços demorados. Uma história de medo e coragem. Na qual eu não era um personagem, mas sim um ouvinte onipresente. Me sentia o cenário, as falas e o figurino. Me sentia exatamente presente em todos os movimentos, sons, diálogos e desfechos. Embora a história não existisse, eu podia realmente senti-la. Podia sentir seu passado, presente e futuro.

E sentia pulsando. Dentro de mim tudo se movimentava, girava e pulsava. De maneira loucamente agitada, pacífica e deliciosa.

Era uma experiência incrível, e o que mais me tocou era a paz. A paz entre o escuro e o claro de cada escala. Entre o agudo e o grave de cada sentimento. Entre o silêncio e o barulho de cada nota. Entre os movimentos abruptos e delicados. Entre os berros e sussurros. Eu era tudo isso, eu era paz.

Aos poucos meu corpo foi descendo. Não foi um movimento perceptível. Foi aos poucos. Como se a frequência musical diminuísse em harmonia com meu sono, que me despertava para algo que havia sumido durante um tempo incalculável: a minha própria vida. Foi algo como uma passagem por um limiar realmente sutil. Uma passagem de um estado completamente consciente de transe para um estado de transe inconsciente. Eu só soube disso mais tarde. Só soube da minha própria condição depois que algum tempo passou e eu já estava do outro lado.

Senti que vivi algo que não me dizia respeito. Como uma interferência divina. Realmente uma interferência. Algo que, sem sombra de dúvida alguma, não me dizia respeito. Não era para eu ter vivido aquilo. No mínimo não deveria me lembrar. Mas a música tocara meu coração de maneira que ele jamais poderia esquecê-la.

As palavras não são capazes – e nunca serão – de descrever o sentimento de ser um músculo. Ou de ser algo menor e mais potente ainda: um átomo. Fui um átomo. Não serão capazes de descrever o movimento entre as células. Fui movimento. Não serão capazes de descrever a mudança de temperatura. Fui temperatura. Não serão capazes de descrever o limiar entre o escuro e o claro. Fui luz. Não serão capazes de descrever a beleza. Fui beleza. Não serão capazes de descrever um sentimento. Fui sentimento. Não serão capazes de descrever como surge a vida.

Eu nasci.

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