Sonhos escorrentes

Lá estava eu, no meio do nada, no meio de tempo algum. Me sentia um sem sensações, um sem sentimentos. E ao mesmo tempo sentia-me o âmago de mim mesmo. Era o todo. Eu continha o todo. E tudo me continha. Como se uma experiência maluca pudesse me mostrar a vida mas do que ela própria. Como se tudo que eu vivesse não se passasse de uma aventura de mentirinha, um conto, escrito por alguém que nunca saiu da sua caverna medonhamente submersa nas profundezas do mar.

Ouvi ao longe uma canção. Cantada por um coro enorme. Algo entre todas as pessoas do mundo e todas as do universo. Um coro cantado por sábios. Capazes de transparecer entre acordes e melodias a verdade que está no meio de nós: existe algo entre nós.

Algo que nos separa. Algo que nos uni. Somos conjuntos musicais matemáticos de contas imaginariamente simples se considerada a complexidade do todo. O todo que não é consciente. O todo que não conscientiza. Canto junto com o coro. As vozes são minhas também. Assim como sou delas. Tenho arrepios nos neurônios, imperceptíveis se considerado o decorrer do tempo. Ele parou.

Mas eu ainda estou aqui. Aqui e apostos. Aberto, arreganhado, exposto a tudo que vier de mim e tudo que me vier. A estranha sensação de aprisionamento se mescla com a liberdade formidável que a inexistência do tempo é capaz de conceber a um homem. Homem. Mulher. Ser. Não ser.

Me deixo de lado. Me entrego. A verdade me toca e puxa um fio de cabelo. Dói e me dá prazer. Quero me deixar levar. Quero me deixar lavar. Quero que de mim só sobre o outro. Os outros. O todo. O nada. Tudo parece igual. Me mostro sem virtudes, me mostro sem necessidades, me mostro sem me mostrar. Mostro-me a mim mesmo.

Me vejo e morro. Nasço de novo.

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