Descabelo

Ainda tenho algum tempo. Vou aproveitar para escrever algo. Para registrar-me em minhas linhas. Dar-me forma pelas minhas letras. Atribuir-me sentido pelas minhas frases. E quem sabe, mostrar-me para ti, pelas minhas ideias.

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Me vem a cabeça aquele enorme clichê, que circula pelo mundo em contêineres por navios, trens e estradas do mundo inteiro. Que ocupa espaço e viaja por todas as épocas. Por todas as civilizações. “Minhas ideias não cabem em palavras”. A linguagem que conheço não dialoga com meu mundo interior. Ele é insoletrável perto das pouquíssimas e mal cheirosas letras do nosso patético alfabeto. As combinações entre elas? São infinitas. Mas talvez não seja a melhor forma de se expressar permutando as combinações possíveis.

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Vuptlupt. Com certeza, essa inexistente – na linguagem comum- palavra expressa muito mais sensações, sentimentos, percepções do que muitos textos bem escritos por aí. Mas para que ela realmente exista, ela precisa ser compartilhada. Ela precisa ser legitimada em duas ou mais realidades. Ou seja, “reality is only true when shared”. Se a realidade é só sua, serás considerado um louco, my friend.

Somos uma composição. Musical, matemática ou visual? Não sei. Mas somos uma composição de realidades, sem sombra de dúvida. Imagine que nossas ideias são conjuntos matemáticos. Algumas delas coincidem completamente com ideias/conjuntos de outras pessoas. Outras não tem nenhum elemento em comum. Coloque lenha nessa fogueira, por obséquio: pense em infinitos conjuntos. Conjuntos que rodeiam nosso consciente e inconsciente e se cruzam com os conjuntos de outras pessoas. De outros animais. De outras paisagens. De outras águas. De outros mundos.

 

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Esses conjuntos podem ser vazios. Esses conjuntos podem ser diferentes. E esses conjuntos podem ser complementares. São inúmeros diálogos possíveis. Entre nós. Entre nossas realidades. Entre nossos conjuntos. E todos os conjuntos existentes juntos, formam algo maior. Muito maior. Tão enormemente gigante, que se torna impossível entender essa coincidência dos iguais e dos opostos. Todos os conjuntos batidos no liquidificar galáctico? Mais ou menos isso. A grande questão é que essa maçaroca é tão grande, mas tão grande que não conseguimos enxergá-la, percebê-la. É como se um elefante de pelúcia azul fosse o céu. Ele está lá, dormindo, há milhares de anos. Ele é um elefante de pelúcia azul, mas nós enxergamos o céu. E portanto, não importa o elefante. Importa o céu.

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O que importa para cada indivíduo é como ele percebe a realidade. Realidade essa que é caótica. Realidade essa que é pacífica. Realidade que transita entre a comunidade e a singularidade. Se trata de um equilíbrio dinâmico. Algo que visto de perto, pode parecer desequilibrado. Visto de longe pode parecer extremamente equilibrado. Mas o que realmente importa é que esse ponto de vista não importa. Ele é um mero referencial teórico. Na prática, sente-se na própria pele. Um computador jamais sentirá dores de parto. Pode ser que em um momento um determinado estímulo tenha uma sensação e em outro momento o mesmo estímulo tenha outra percepção.

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O que me descabela é entender esses momentos. Esses períodos dessa realidade que me parece circular, espiralizada. Entender que existem ciclos, mas não círculos. Que existe antes e depois. Mas não existe tempo.

Não existe tempo.

Existe luz. O tempo é apenas uma medida de luz. Como o metro. O metro pertence a conjuntos de pessoas de diferentes partes do mundo. Fareje esse exemplo: uma porta tem dois metros. É uma verdade, muito bem. Porém, um cachorro não vislumbra essa verdade. Talvez isso nem passe pela cabeça dele. Mas ele vê a porta. Ele percebe a porta. Ela o impede de passar. A porta existe. Mas a medida dela não. A medida dela é apenas uma invenção compartilhada em diversos conjuntos. É uma viagem, uma brisa, um devaneio.

O tempo funciona da mesma maneira. Ele é apenas a medida de algo muito delicado para ser caído em tentação na boca de qualquer ser: a luz. Onda? Partícula?

Como explicar a luz? Como conviver com ela? Como aceitar que ela muda a cor da nossa pele? Transforma gelo em água? Transforma morte em vida? Transforma vida em morte?

Esse diálogo entre vida e morte é a regência da existência. É fator crucial na composição da realidade individual e coletiva. Esse par binário coexiste o tempo todo. Não se anula. Apenas se equilibra. O equilíbrio é dinâmico. Como na última camada de um átomo. Como na bandeja de um garçom. Como nos movimentos dos astros.

Movimentos esses que nos latem o tempo. Nos fazem engolir, como gansos, que o tempo existe. Que seu movimento é um metrônomo. Que seus passos são compassos. Que nossos tons e melodias devem soar ao seu ritmo.

Me descabelo com o tempo.

Ele não existe, mas ele passa.

Foto de capa: Luiz Maudonnet 

 

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