Perca-se

Ouço a chuva cair e penso que a resposta está nela. Não na chuva em si, mas na acontecência da chuva. Nela como um todo.

Os pingos se separam no céu, deixam de ser nuvens e viram pingos. Que vivem uma queda livre, tão rápida que não é possível explica-la, não é possível explicar a chuva, não é possível explicar a vida.

Seus caminhos se cruzam com de outros pingos, de forma tão abrupta, deliciosa e mortal que não é possível acompanhar um pingo, porque ele não é único a chuva toda. Não é possível acompanhar a vida, porque não somos um só durante toda ela.

Caem, cada um em um canto, alguns nos mesmos. Em solo fértil, em solo macio, em solo de concreto. Caem nos muros de arame farpado. Caem nos animais. Caem na vida. A machucam. E machucam-se. Não se pode dizer qual a causa mortis. Porque não se sabe qual a causa vidas.

Escorrem, infiltram-se, se escondem pela derme do planeta. Se transformam lá dentro, são transformados, transformam. Jamais saberemos como é morrer.

Morrem e renascem. Minúsculos embriões de pingos sobem aos céus para juntar-se uns aos outros. Se aglutinam, se chocam, se amam e se separam. Algo os chama. Algo rompe com o caótico estável estado de nuvem. Algo inexplicável, uma luz, uma energia. Algo vem.

Eles vão

Os pingos se formam e se desformam sem saber o que são e onde cairão. Jamais suspeitaram de quem foram. Nunca saberão quem serão.

Apenas se entregam e se devoram.

 

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