Acalmado

Minha esquizofrenia me mata. Mas me mata menos do que antes. Depois que eu percebi que os que me cercam também o são. Me senti melhor.

Eu mudo de ideia de um segundo para o outro. Mas não mudo de ideia todos os segundos.

Tenho mil coisas pra fazer. E depois não tenho nada.

Nada que me traga sentido. Nada que me firme os pés no chão e afaste esse sentimento vazio de preocupação para longe de mim.

Longe de mim e perto dos outros?

Eu não quero que façam carnaval em frente a minha residência. O ênfase está no “minha”.

Eu não quero bagunça na minha cabeça.

As cabeças que não são minhas que se virem pra organizar essa joça.

O ponto é que é um sentimento esquisito. Como se algo estivesse errado. Mas nada parece fora do lugar.

 

Apenas eu.

 

Eu estou deslocado. Fora do lugar. No lugar errado.

Não me vejo, não me identifico nas coisas que as pessoas inventaram.

Na academia de estudos, nas grandes empresas, nos altos cargos, nas formalidades, nos conjuntos de regras, no senso comum, na programação da televisão aberta, na programação da televisão fechada, no curriculum vitae –da minha vida ele não sabe nada.

Eu não faço parte. Sou minha própria porção. Meu próprio caminho. Minha própria avenida. Minha própria religião. Meu próprio sistema de nomeação.

Não sou normal. Comum. Um cara como os outros.

E isso me deixa feliz.

E na mesma medida que eu me vejo fora, longe das pessoas e das coisas que as pessoas criaram, me vejo magnético. Me vejo atraindo as pessoas, as coisas que as pessoas criaram. Me vejo como um imã que atrai de tudo. As coisas que gosto e não gosto. Um imã sem escrúpulos, sem filtros.

Um imã que se alimenta de qualquer coisa. Mesmo sem ter fome.

Um imã que se reproduz a qualquer custo. Mesmo que no canteiro e época errados.

Paro de escrever e sinto o cheiro do meu cabelo. Cheiro de mar.

Mar misturado com o cheiro de Hipoglos.

Porque eu estava na praia. Agora estou na cidade.

Eu estava queimado. Agora estou melado.

Eu estava completo. Cheio de sal e Sol. Cheio de oceano dentro de mim.

Agora estou esquizofrênico. Minha dúvida é se fico ou parto.

Sempre é essa a dúvida.

Fico nessa merda sem sentido?

Ou parto? Mais uma vez em busca de uma nova realidade, dotada de sentido.

Uma realidade que não existe. Algo inventado. Que está apenas na minha cabeça.

Minhas suposições de uma vida diferente. Encaixadinha. Cíclica, perfeita.

Largo tudo e vou?

Vendo tudo e voo?

Deixo o conforto pra trás? Deixo os amigos, os gatos e a família me esperando?

Ou levo eles comigo?

Me vem a cabeça a imagem de um navio em alto mar, velejando com seu porto atracado em si. Me parece algo estranho.

Acho melhor deixar tudo pra trás. Levar apenas o estritamente necessário. Levar só algumas poucas roupas. Alguns poucos papéis. Algumas canetas. Lanterna. Casaco se fizer frio, sunga se tiver onde nadar. Prancha. Parafina. Leash reserva. Uma barraca se for o caso de acampar. Um benjamim e um transformador daqueles 110v-220v. Alguns CDs. O cabo de chupeta do carro. Rg e documentos. Livros de temas e tamanhos variados. Revistas para descontrair. Dinheiro reserva. Algumas garrafas de água pra encher pelo caminho. Carregador do celular. Tudo bem, o notebook é importante para trabalhar.

E apenas com isso. Com essas pouquíssimas coisas, eu sou capaz de deixar meu porto seguro do conforto mágico e passar um final de semana na praia.

 

E voltar.

 

Lá me sinto bem.

Lá me sinto mal.

Lá me sinto mais bem do que mal.

 

Aqui me sinto bem.

Aqui me sinto mal.

Aqui me sinto tão bem quanto mal.

 

Me consumo.

 

Sou aquela figura daquela cobra que come o próprio rabo.

Dependendo das estações do ano, eu como um pedaço.

Dependendo da Lua eu sorrio.

Dependendo da Lua eu choro.

 

Dependendo do céu eu me devoro.

 

E percebo que talvez seja assim mesmo.

Talvez a alma se alimente de si mesma para continuar viva.

 

 

 

Conta o que você achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: