Nós todos

Escuta a versão falada aqui:

 

 

Chove lá fora. 

Não faz frio. Mas não sinto calor. Como um aposentado escrevo com uma manta nas pernas, no conforto de uma cama de hotel. Minha família dorme. 

Nada me incomoda. 

Mas eu sinto um chamado. Um chamado de inspiração. Sinto vontade de assistir vídeos de surfe, como fazia sempre há dois ou três anos atrás. Sinto vontade de escutar uma música que me faça sentir o frescor do movimento da vida. Do movimento das ondas. 

Aumento o zoom. Letras pequenas me incomodam. 

Gosto de tudo grande. Gosto de me sentir parte desse mundo pequeno. Meus pés ficam pra fora da cama. 

Escuto Chet Faker, sento em uma posição melhor. E tudo começa a contribuir pra eu sentir o ar saindo e entrando do meu corpo. Me faz lembrar que isso é a vida. Respirar e pirar. 

Depois que a marcenaria entrou na minha vida eu prefiro produzir e deixo de viajar. Deixo a natureza de lado, longe. É uma relação de trabalho. Os clientes tem pressa. Não sentem o peso do tempo que cada pedaço de madeira traz. O tempo que cada fibra demorou a se formar, crescer, sustentar uma árvore de dezenas de metros. 

Esse tempo vira móvel. 

E isso é muito sério. Sempre achei muito sério manusear a natureza pra transforma-la a nosso favor. Sempre achei muito sério a nossa relação com a cadeia produtiva. 

E ontem aconteceu Brumadinho. Há três anos foi Mariana. Daqui a quatro, será que as eleições vão afundar a gente de vez na lama? 

Ou será que não vai ter eleição? 

Não sei. Mas muita coisa mudou nos últimos 2 na minha vida. 

Eu vejo o amor de forma diferente. E mais importante que ver, eu sinto de forma diferente. 

Eu não tenho mais ciúmes. Porque quero ver quem eu amo feliz. 

Eu não economizo amor, porque é a única coisa infinita sobre essa terra. 

Tenhamos com aqueles que não entendemos. 

Meu corpo sente e minha mente mente. Paro de entrar nos labirintos racionais e percebo que respirar e sentir é mais rápido e mais eficaz. Uma repetição infinita é necessária pra bem aos pouquinhos aprender a sentir. Ser sensível e sensitivo é um desafio agora que somos adultos racionais e inteligentíssimos. 

Muito mais inteligentes do que as pobres e burras crianças….

Mas não sabemos tomar as decisões importantes. Nem responder às questões essenciais. Enquanto a natureza berra, a espécie mais evoluída do planeta continua construindo pirâmides

de pessoas. 

Castas. 

Segregação. 

Realidades paralelas. 

Mãos que não se tocam. 

Olhares que não se cruzam.

É gente que não se vê.

Gente que não se sente. 

Gente diferente de gente.

Gente melhor que gente. 

Gente só. 

E a ciência e a racionalidade é tanta que nos separamos da natureza.

Existe a natureza. E existe o humano. Somos diferentes. 

Existem os animais e os seres humanos. 

Não somos animais. Negamos nossa origem. 

Somos superiores. Somos muito mais, muito melhores. 

E conseguimos, nos separamos de tudo que existe. Existe a gente e o resto de tudo. Completamente separado. 

Uma linha reta foi traçada. 

Como as Tordesilhas. seguimos. 

Como as fronteiras traçadas no papel por unidades de pessoas com a intenção de separar milhares. 

Milhares de gentes. 

Milhares de dinheiros. 

É papel. É engraçado. 

É uma brincadeira que ficou super séria. 

É um Banco Imobiliário real. Se perder morre, passa fome. 

Foda-se. 

É papel, é especulação, é tudo brincadeira. Levada a sério. 

Enquanto a seriedade da idade nos consome e solidifica aos poucos, o resto da existência estremece. O tempo fecha. E tudo se transforma de maneira esquisita. 

O gelo derrete. E a gente vai lá tirar foto. Em cima de um barco à diesel. 

A floresta adoece. E a gente vai lá ver antes que morra. Voando em toneladas de minério. 

Os animais se escondem. E a gente vai lá procurar. Com uma indústria de microchips na mão. 

Nosso DNA é paradoxal. 

Nossa lógica é a incoerência.

E diante de tanta complexidade, me sinto curioso. 

Tenho vontade de aceitar o caos. Aprender a lidar com ele. De fazer arte. De fazer parte. 

Sinto que é importante dialogar fora do racional. 

Sinto vontade de abraçar as pessoas bem forte, por bastante tempo. 

De mostrar que te amo, sem dizer nada. 

De conversar fazendo e não falando. 

De me mostrar por dentro, pra pessoas se sentirem seguras pra se mostrarem também. 

Procuro caminhos que me tragam mais dúvidas. Fujo das certezas que moram em fortalezas. 

Me entrego ao risco de sentir.

Sentir e fazer

qualquer coisa que toque as pessoas que estão escondidas dentro dos seres humanos. 

 

 

 

 

foto: Monique Lopes

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